Chamado para a vida

O coração de Cristiano parou por 16 minutos no Km 19 de uma prova. E ele voltou mais forte que nunca

Foto: João Atala.

Por Daniela Fescina

A cada ano, a morte súbita mata 160 mil pessoas no Brasil. Em uma parada cardiorrespiratória, por exemplo, depois dos primeiros cinco minutos, aproximadamente 50% das vítimas não sobrevivem. Depois disso, a cada minuto que passa esse número vai aumentando em 10%. Ou seja, em dez minutos é provável que ninguém sobreviva. Cristiano Goldenberg é aquele cara que literalmente correu das estatísticas.

Aos 41 anos, Cristiano passou a valorizar cada segundo da vida depois que seu coração ficou parado por 16 minutos. Isso mesmo: minutos. E isso aconteceu enquanto ele fazia uma das coisas que mais lhe dá prazer: correr. O ano era 2015, e a prova, os 21 km da Golden Run do Rio de Janeiro. Aquela tinha tudo para ser apenas mais uma meia maratona. Cristiano se sentia bem e corria normalmente em direção à linha de chegada. Só que ela nunca chegou.

No Km 17, sentiu-se cansado e com o coração muito acelerado. Começou a intercalar corrida e caminhada e, no final do elevado do Joá, no Km 19, o administrador de em- presas caiu sem vida. Uma parada cardiorrespiratória colocou o corredor no chão. Se Cristiano nunca tivesse acordado, sua morte seria classificada como súbita, ou seja, inesperada e muito rápida. Mas, felizmente, havia um médico correndo logo atrás. Bruno Bussade foi o grande responsável por trazer o carioca de volta à vida. O cardiologista fez massagens cardíacas ininterruptas durante todo o tempo, revezandose com a médica Patrícia Albuquerque e a enfermeira Thatiane Delatorre, que também faziam a prova. Sem esses esforços imediatos, Cristiano não teria sobrevivido para contar sua história, que de tão extraordinária virou livro.

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E da quase tragédia nasceu uma grande amizade. “Não existiria Cristiano se não fosse o Bruno. O que ele fez vai muito além de gentileza. Foi humanitário, sem obrigações. Ganhei um amigo para a vida toda. Treinamos juntos, corremos juntos e brindamos juntos.” A parceria é tanta que em maio deste ano os dois correram juntos a mesma prova onde tudo aconteceu em 2015. Mas desta vez cruzaram a linha de chegada, celebrando um ano de renascimento.

Foto: João Atala.

“Foi um divisor de águas: eu caí de um jeito e levantei de outro. Minhas prioridades mudaram por completo, já que eu poderia estar morto ou com alguma sequela. Tive uma chance de ouro, e por isso mesmo não posso brincar de ser feliz.” Depois do acidente, largou o emprego em uma grande corporação. Cristiano não tinha ideia do que faria da vida. Mas tinha pressa de ser feliz. “O objetivo da minha vida é ser feliz todos os dias. Isso não é um projeto futuro: é presente, é hoje, é agora.”

PARA SEMPRE CORREDOR

Foi em 2007, ao retornar ao Brasil depois de três anos e meio na França que Cristiano decidiu tomar uma atitude. As roupas estavam justas, o peso já incomodava e, com o incentivo de uma amiga, ele disse: “Por que não?”. Começou a correr, a ver os quilos extras irem embora e se apaixonou pelo esporte. Em pouco tempo, estreava em uma prova de 10 km. Logo vieram as meias maratonas, ainda hoje sua distância preferida.

Antes de passar pela experiência de quase morte, ele já tinha corrido 15 meias maratonas, estava com a saúde perfeita e não tinha feito nenhum esforço exagerado. Após o incidente, ele ficou 48 horas em observação, quando os médicos constataram que não havia nada de errado com o seu coração. “Eles não sabiam explicar o que tinha me acontecido nem por quê.”

Mas no meio de tantos questionamentos, uma certeza surgiu. “O episódio poderia ter me transformado em uma pessoa mais medrosa, só que me ocorreu o contrário. Acabei me tornando um homem mais corajoso.” Cristiano não só não parou de correr, como pensa em estrear nos 42 km. “Eu consigo completar uma meia de forma muito confortável, sinto que posso mais.” Na pequena cirurgia realizada após o acidente no Rio, ele colocou um desfibrilador subcutâneo, que lhe dá uma segurança extra, já que pode emitir choques caso seu coração pare de bater novamente.

Foto: João Atala.

Três meses após “renascer”, Cristiano pediu o desligamento da empresa onde trabalhava como auditor. “Eu tinha um cargo bom, com um salário bom, mas não estava feliz, então do que adiantava?” Em outubro do mesmo ano, sentou para escrever sobre o episódio e as pessoas que salvaram a vida dele. Três meses depois, nascia um livro: Km 19: Onde Caí e Levantei para Recomeçar. “Eu nunca tinha escrito nada e, quando vi, tinha 400 páginas. O mais impressionante é que o editor não alterou nenhuma palavra.” Para quem precisa de inspiração para os treinos diários, ali há de sobra.

MANTRAS SALVADORES

As frases que motivam Cristiano na corrida e na vida
• Felicidade não é projeto futuro. É presente.
• Não está feliz? O que você está fazendo para ser?
• Agradecer mais e reclamar menos.
• Medo ou coragem? Coragem, sempre!
• Fazer o bem sem olhar a quem.

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