Como a corrida o ajudou no tratamento do alcoolismo

José Carlos Martins correu para se reencontrar com o homem que era antes da bebida

No Aterro do Flamengo, milhares de corredores alcançavam, exaustos e triunfantes, a linha de chegada da Meia Maratona do Rio. Era um domingo de sol no inverno carioca, e José Carlos Martins chegava ao fim da prova ao lado de tanta gente, com trajetórias tão distintas. A sensação de completar os 21 km era tão especial quanto o fato de estar em uma cidade nova e poder olhar cada atleta como seu igual.

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José Carlos percorreu um longo e tortuoso caminho para chegar àquela largada. Natural e morador de Elias Fausto, no interior do Estado de São Paulo, desde a adolescência ele encon­trava na cachaça a resposta para todo tipo de emoção. Mesmo depois do casamento com Rita e do nascimento da filha, Carla, quando José Carlos tinha 24 anos de idade, ele não conse­guiu reverter o vício. “Perdi o controle sobre a bebida, e ela passou a dominar meu dia a dia”, diz. “Os mínimos detalhes me irritavam quando estava sob o efeito do álcool.”

Passaram-se anos até o que parecia um consumo aparentemente inofensivo se tornar o gatilho para situações de violência dentro e fora de casa. “Entrei em brigas físicas com amigos”, lamenta o frentista. “Mas foi há três anos que pisei no fundo do poço.” Chegando em casa depois de uma bebedeira, José Carlos entrou em uma discussão com a esposa e chegou a agredi-la fisicamente. Foi a gota d’água para Rita e Carla, que já vinham sofrendo com o descontrole do homem da família nos últimos anos. “Vendo minha situação, elas decidiram não dar mais chances”, conta. “Minha esposa e minha filha ficaram na casa que morávamos, e eu fui viver com a minha mãe e o meu pai.”

Correndo do fundo do poço

“Longe das mulheres que eu amo, decidi fazer algo para ocupar minha cabeça de­pois que voltasse do trabalho: comecei a fazer caminhadas”, revela José Carlos. A sugestão de fazer esportes veio da sua psicóloga – o tratamento fazia parte da tentativa de sair da situação em que se encontrava. Ele percorria entre 8 e 15 km por dia e “de vez em quando dava alguns piques para ser mais rápido ou evitar a chuva que estava vindo. Depois de seis meses, percebi que estava correndo o percurso inteiro”. A vontade de beber às vezes vinha de repente, mas José Carlos aprendeu a substituí-la por uma boa dose de quilômetros na rua. “Eu havia me tornado um corredor”, diz o frentista.

Jezuel, irmão de José Carlos, fez a inscrição para participarem da Corrida de São Silvestre, no fim de 2014. Foi a primeira prova oficial de José Carlos desde que ficou sóbrio. “Virei um gran­de corredor amador, criei novos e bons amigos, hábitos saudáveis, recuperei minha autoestima”, conta. Sentindo-se melhor consigo mesmo, o perdão e a reunião com a esposa e a filha eram os próximos passos – e os mais impor­tantes – da sua trajetória. “A bebida já não fazia mais parte da minha vida, e o comportamento era outro”, fala José Carlos. E elas deram a ele uma nova chance. Hoje, aos 46 anos, José Carlos está apenas no início da segunda parte da sua história. Depois de completar a Meia Maratona do Rio de Janeiro, cidade que só conhecia pela televisão, o corredor não pretende parar tão cedo. “Espero chegar ainda mais longe e co­nhecer novos lugares e pessoas”, diz.

O esporte no tratamento do alcoolismo 

Segundo o psiquia­tra André Malber­gier, que lidera um grupo de pesquisa e tratamento da dependência em drogas do Hospital das Clínicas da Uni­versidade de São Paulo, há várias formas com que o esporte pode atuar no tratamento de dependentes químicos.

Diminuição do estresse e da ansiedade

Sintomas que estão relacionados à depressão e muito comuns em pacientes com dependência quími­ca, o estresse e a ansiedade podem ser combatidos por meio de atividades físicas. “É uma via indireta: a melhora, através do esporte, desses sintomas pode ajudar no tratamento do de­pendente químico”, explica André.

Liberação do BDNF

O Fator Neurotró­fico Derivado do Cérebro (BDNF, na sigla em inglês) é uma proteína relacionada aos neurônios que é liberada durante a prática de exer­cícios físicos. “Ela melhora as condi­ções do cérebro do sujeito”, explica o psiquiatra. “O álcool é uma droga muito neurotóxica. à medida que se faz a atividade físi­ca, o BDNF ajuda na regeneração do cérebro.”

Liberação de oxitocina

Pesquisas recen­tes apontam que o hormônio, que é liberado na prática de exercícios físi­cos, pode diminuir a dependência química do álcool. “Isso foi testado apenas em ratos, e ainda não em humanos”, afirma o especialista.

Disciplina e efetividade

“A percepção de autoefetividade é muito associada à mudança de comportamento”, diz André. Na corrida, é preciso ter uma disciplina para alcançar os objetivos, e, quan­do se alcança uma distância colocada como meta pes­soal, a pessoa se sente competente e eficaz. Isso dá a sensação de au­toefetividade, que também vai auxiliar na hora de largar uma dependência.

Foco e prazer

“A falta do álcool é sentido como algo desprazeroso pela pessoa. Quando se faz uma atividade física, você mexe na transmissão de endorfina e serotonina e está combatendo o mal-estar causado pela fissura pelo álcool”, explica o psiquiatra. Qualquer tipo de tarefa construtiva que exija um novo foco e dê prazer ao dependente auxilia no tratamento.

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