Diferencial genético

O segredo para melhorar seus treinos, sua performance e sua recuperação pode estar no seu DNA?

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Por Kelly Bastone

A atleta de elite norte-americana Muna Lee sabe que seu forte são as distâncias curtas – afinal, ela competiu duas vezes em Jogos Olímpicos, nos 100m e 200m. Mas velocistas não precisam apenas correr rápido para serem bem-sucedidos. Na preparação para as eliminatórias de atletismo para a Olimpíada no Rio, Muna focou cada vez mais em resistência e dedicou mais tempo à recuperação – tudo baseado em testes de DNA.

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Dois anos atrás, Muna teve uma amostra de sua saliva analisada pela empresa canadense Athletigen. O resultado ofereceu sugestões de treinamento baseadas em diversos genótipos, incluindo o HIF1A (que indica quanto oxigênio o organismo entrega aos músculos). Essa informação, ela acredita, pode representar a vantagem de que precisa para participar de sua terceira Olimpíada. Muna diz que se sente mais forte e descansada: “Quem dera eu tivesse feito isso antes”.

Muna treina com mais de cem outros atletas em Altis, um complexo de atletismo em Phoenix, nos Estados Unidos. Os treinadores de Altis colaboram há dois anos com os cientistas da Athletigen para recrutar atletas e ajudar a entender as relações entre genética e performance, segundo o fundador e CEO da Altis, John Godina. “Trata-se de mais uma ferramenta para enxergar o indivíduo por outro ângulo e entender o que acontece, mas levamos também em conta a experiência dos atletas e a nossa como treinadores.”

Quebrando seu código

Você não precisa ser um atleta olímpico para ter acesso a esses dados. Esse tipo de teste já é oferecido a esportistas amadores, inclusive no Brasil. Os detalhes variam, mas a maioria deles promete testar genes relacionados ao desenvolvimento muscular, ao tempo de recuperação e ao risco de lesão – e fornecer um plano de treinamento (e, às vezes, até uma dieta) criado sob medida para o seu genoma.

Nem todo mundo, no entanto, se rende à teoria. Alguns pesquisadores em genética defendem que os argumentos superam as evidências. Um grupo de especialistas divulgou um texto em uma edição recente do British Journal of Sports Medicine desestimulando as pessoas a usarem esse tipo de teste genético. Não há dúvidas de que o DNA influencia não apenas seu tempo nos 5 km como também sua porcentagem de gordura corporal. Mas, diferentemente de algumas doenças hereditárias que derivam de uma simples mutação genética, o código genético por trás da performance esportiva mostrou-se bem mais difícil de desvendar, segundo Linda Pescatello, cientista da Universidade de Connecticut (EUA).

Em alguns casos, genes que, de acordo com um estudo, influenciam características atléticas não passaram por um exame científico mais minucioso, ela explica. Em outros, os efeitos de mutações que os cientistas conhecem tornam-se pequenos em comparação a outros que eles desconhecem. “Imagine que você pega 12 peças, entre centenas ou milhares das de um quebra-cabeça”, diz David Epstein, autor de The Sports Gene: Inside the Science of Extraordinary Athletic Performance [O Gene do Esporte: Por Dentro da Ciência da Extraordinária Performance Atlética]. “Você dá à pessoa a ideia de que está fazendo um balanço de porcentagens dentro de 100 quando, na verdade, os 100% podem represen-
tar menos de 1% do que é realmente importante.”

Contra o relógio

Linda prevê que serão necessárias décadas para que os cientistas realmente dominem o código genético o suficiente para obter orientações de treinamento de fato úteis e específicas. Mas atletas como Lee – que, aos 34 anos, provavelmente não terá outra chance em Jogos Olímpicos – não querem esperar. John diz que entende o ceticismo, mas que vê poucas desvantagens para seus atletas. Como ele é capaz de monitorar e compreender muito do que acontece na vida de seus atletas, pode ajudá-los a incorporar as descobertas aos treinos antes de outros corredores. “A genética é um aspecto do todo”, John explica. “Se você pretende obter 10% de melhora e esgotou todos os outros caminhos, e a genética pode oferecer esses 10%, então ela cumpriu sua função.”

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Herança de fôlego

Quatro maneiras de como seus genes podem definir sua corrida

Velocidade/resistência

Os genes influenciam o equilíbrio entre as fibras musculares de contração rápida e lenta, que determinam se você vai se sair melhor nos 100m ou nos 42 km. A maioria dos velocistas de elite, por exemplo, não possui variação de um gene chamado ACTN3, que prejudica a performance em sprints.

NA PRÁTICA Ter essa variação genética informa apenas que você não vai competir com Usain Bolt, não que você será aprovado para a Maratona de Boston – e com certeza não diz qual é a melhor maneira de treinar para ela, diz o geneticista Stephen Roth.

Risco de lesão 

Uma cópia de um gene denominado COL1A está relacionada a rupturas do ligamento cruzado anterior. E há 67 fragmentos de DNA que influenciam seu risco de sofrer fraturas. Seus genes explicam parte da sua propensão a sofrer lesões, segundo o cientista Stuart Kim, da Universidade de Stanford (EUA).

NA PRÁTICA Os marcadores genéticos que os cientistas localizaram explicam apenas uma pequena porção do quadro genético total – o que não conhecemos representa mais do que o que já sabemos. Olhe para o seu passado: ter sofrido uma lesão expõe você a um risco alto de recidiva.

Recuperação

Empresas de testes genéticos analisam genes como o IL-6, um marcador de inflamação, e recomendam o tempo ideal de descanso.

NA PRÁTICA Muitos fatores contribuem para a taxa de recuperação, incluindo a intensidade em que você corre e o que come em seguida. Para saber como isso tudo se encaixa na vida prática, use uma ferramenta como o Ithlete – que combina um sensor de impressão digital com um aplicativo (US $7 e US$ 9 no myithlete.com) – para manter gráficos da sua variação de batimentos cardíacos, que pode indicar overtraining.

Biótipo

A maioria dos testes genéticos identifica genes como sendo os da obesidade. Determinadas variações aumentam seu risco da doença, talvez por influenciar o apetite ou o acúmulo de gordura.

NA PRÁTICA Muitos outros genes – além de hábitos de vida, como seu cardápio, sono e prática de atividade física – determinam se você conseguirá manter a forma. Se tiver histórico de obesidade na família – ou suspeita disso – use isso como motivação. Uma hora de corrida por semana já é suficiente para colocar a balança a seu favor, mesmo que você seja geneticamente predisposto à obesidade.

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