Ex-usuário de drogas tem a vida salva pela corrida

“Existe uma saída. A corrida foi a minha”, diz Robson Silva

Por Daniela Fescina. Fotos por Rodrigo Phillips

“Hoje a corrida para mim é essencial. Eu posso deixar de fazer qualquer coisa, mas não deixo de correr. É ela que me mantém sóbrio há um ano e dois meses. Sem beber, sem usar drogas, apenas correndo. Só desejo, de verdade, que esta reportagem alcance pelo menos uma pessoa que sofre com as drogas, para que ela possa ver que existe uma saída. A corrida foi a minha.”

O fim da história de Robson Silva, de 34 anos, é tão feliz que veio parar no início deste texto. A trajetória do paulistano, que hoje mora em Itapema, Santa Catarina, é de superação. O carpinteiro encontrou no esporte a força de que precisava para não virar estatística: no mundo, mais de 200 mil pessoas por ano perdem a vida devido ao consumo de droga.

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Criado no bairro do Brooklyn, na zona sul de São Paulo, ele era uma criança que não gostava de ficar parada. Hiperativo, ansioso, irritado, Robson sempre arrumava brigas na escola e, segundo ele, “não conseguia se encontrar, estava sempre se sentindo perdido”. A adolescência não foi diferente. “Eu não tinha paciência e era muito estourado. Aos 17 anos, fui expulso do colégio e, depois disso, de casa.”

Aos 18 anos, ele se mudou para a casa do sogro da irmã em Guaratinguetá, interior de São Paulo. Foi quando descobriu o álcool. Começou a beber e, influenciado pelo círculo de amigos e pela curiosidade, logo começou a usar cocaína. “Essa fase durou uns dois anos. Eu aprontava, usava cocaína, bebia e brigava. Eram as únicas coisas que eu sabia fazer. Foi uma fase muito conturbada.” Para manter o vício, Robson chegou a trabalhar em três empregos diferentes, e mesmo assim o dinheiro não dava.

Foi no meio dessa confusão toda, aos 19 anos, que ele teve a primeira filha. O nascimento veio acompanhado de medo e frustração: como dar a Stefany tudo de que ela precisava? Robson resolveu ir para Phoenix, nos Estados Unidos, a fim de ganhar dinheiro para ajudar na criação da filha.

Como o seu visto foi negado, ele atravessou ilegalmente a fronteira pelo México, no deserto. “Saí do Brasil sem dinheiro, só com a passagem, para chegar em um lugar onde eu não conhecia ninguém e não sabia nem falar a língua”, lembra. Apesar de enfrentar uma situação de risco, o que ficou foi a lição de que ele era capaz. “Uma coisa da qual nunca tive medo é a vida.”

Mas a vida nos Estados Unidos não foi nada tranquila: “Tudo piorou. Com dinheiro fácil, bebida e drogas mais pesadas, eu me destruía mais a cada dia”. Depois de três anos, Robson foi deportado por viver ilegalmente no país e voltou para Guaratinguetá em 2006, junto da esposa, Camilla (que ele conheceu nos EUA), e da filha Rebeca, fruto da união, e montou uma pizzaria. Sua vida parecia ter encontrado um rumo, até que ele cedeu ao convite de um amigo e experimentou o crack. “Foi quando me afundei por dez anos. Destruí tudo por causa do crack. Foram muitas desilusões, brigas, idas e vindas no meu casamento. Minha mãe vivia desesperada.” A família só descobriu o uso de drogas quando ele tentou o suicídio pela primeira vez: logo em seguida, pediu ajuda aos pais e foi internado.

Robson ficou um ano internado voluntariamente em uma clínica em uma cidade vizinha, Pindamonhangaba – ele poderia sair de lá a hora que quisesse. Três meses depois de deixar a clínica, ele voltou a fumar crack novamente. Ao longo dos dez anos em que foi usuário, tentou de tudo. Internou-se várias vezes, começou a frequentar a igreja evangélica e quase virou pastor. “Eu não queria dar mais desgosto para a minha família, queria paz. Mas vinham aquelas velhas frustrações, aquela irritabilidade que eu tenho, a ansiedade. Uma hora você está bem, na outra, não. É uma loucura conviver 24 horas com isso.”

Fez-se luz

Em 2010, nasceu Gustavo, o terceiro filho de Robson e segundo com Camilla. Em uma nova tentativa de recomeçar e parar com as drogas, Robson saiu do interior de São Paulo e foi morar com a mãe em Itapema. Ele chegava a ficar alguns meses sóbrio, mas logo vinha a recaída.

Nesse vai e vem de internações, a família e os amigos foram se afastando. Os filhos, a esposa, os pais, ninguém acreditava mais que Robson conseguiria parar com as drogas, nem ele mesmo. Desesperado, em 2015 tentou suicídio novamente e foi morar nas ruas. Camilla se afastou e ele já não tinha mais contato com os filhos. Mas, mesmo sem forças, Robson ainda sonhava com uma vida melhor. Foi então que na sua sexta internação, aos 32 anos, veio o resgate: a corrida de rua.

Lá estava ele no terceiro mês de tratamento em uma clínica de Camboriú, em Santa Catarina, quando a psicóloga mostrou aos internos um vídeo sobre o processo de mudança pelo esporte. Aquilo tocou Robson. “Eu olhei e pensei que precisava fazer alguma coisa por mim. No vídeo, vi um pessoal correndo, levantando troféu, ganhando medalha.” Como havia um campo de futebol na clínica, ele começou a correr todos os dias. Logo pediu para correr na rua e foi autorizado. “Mudei da água para o vinho em três semanas. Depois de seis meses internado, resolvi passar o Natal na casa da minha mãe e me inscrevi para uma prova na cidade. Fiz os 5 km em 29min, quase morrendo, e cheguei em 5° lugar na minha categoria. Quando subi naquele pódio, falei para mim mesmo que um dia eu estaria lá na 1° colocação.”

Hoje Robson corre diariamente, com planilhas de um primo que é treinador e também com treinos que ele mesmo cria. E, assim, consegue alcançar metas e distâncias cada vez maiores. “Quando a competição é de 5 km ou 10 km, procuro focar os meus pensamentos só no crack, naquela raiva que tenho da droga, porque aí sei que vou mais rápido.”

No dia 30 de abril, ele fez a sua primeira prova de 21 km em 1h36 e agora pretende completar 24 provas até o fim do ano. “Mas metas são feitas para serem quebradas. Se eu tiver condições financeiras, gostaria de fazer até mais que isso.” Hoje sua esposa Camilla e o filho Gustavo, que está com 7 anos, também correm. O esporte promoveu uma aliança dentro da sua casa que antes parecia imprová- vel. Todos da família estão orgulhosos, inclusive a primeira filha, Stefany, que mora com a mãe em Aparecida do Norte, mas visita frequentemente o pai.

A corrida é a ferramenta de Robson para manter a calma e combater a ansiedade. “É melhor que um calmante. Se eu tivesse descoberto a corrida antes, não teria passado por tantas coisas ruins na vida”, afirma. Para ele, não existe uma corrida mais importante que a outra – todas têm seu valor, todas o ajudam a se manter no caminho certo. “Na verdade, o que mais valorizo é o sorriso das pessoas que amo no fim do percurso.”

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  • alexandre tedesco

    Cara, emocionante este depoimento. Embora num nível não patológico, também me incomoda um pouco a ansiedade, e compartilhamos remédio idêntico: a corrida! Fico muito feliz por ele, e por todos que, correndo, se encontraram!

  • Rodrigo Leandro Decon

    Realmente emocionante, surgiram algumas lágrimas aqui. Parabéns Robson, que a sua ida seja repleta de alegrias.

  • Lili Morais

    Muito emocionada com a vida deste rapaz. Que ele siga em frente sempre com muito otimismo. E e que esta materia sirva de exemplo.

  • Walmir

    Legal! Que permaneça firme neste propósito, e que sirva de exemplo para tantos outros que apresentam milhares de desculpas para não se exercitar e não sair da dependência!