Fuga da balança

Aos 18 anos, João ouviu do médico: só a cirurgia bariátrica salvaria sua vida. Assustado, resolveu mudar de vida

Foto: Renato Pizzutto.

Por Petra Monteiro

“Em 2012, o médico me disse que eu precisaria fazer uma cirurgia bariátrica ou iria morrer. Em uma hora você está tranquilo, em outra, seu mundo desmorona.” Ele passara por médicos e psicólogos desde a infância, mas sem sucesso: aos 18 anos, João chegou aos 147 kg e percebia que com aquele peso dificilmente viveria até os 30. “Foi muito chocante, mas também foi a gota d’água para eu enfim decidir mudar de vida.”

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Apesar de seu caso ser de indicação cirúrgica, João decidiu apostar em outro caminho para lutar pela vida: a conhecida combinação de alimentação saudável e prática regular de exercícios físicos. “No começo eu caminhava. Foi a primeira coisa que eu fiz. Eu andava cerca de 5 km em 1h10. O meu sonho era um dia correr 5 km.”

Aos 18 anos, João chegou a pesar 147 kg (na foto com a mãe) e ouviu do médico: só a cirurgia salvaria sua vida. Começou a correr e não parou mais. Foto: Renato Pizzutto.
Aos 18 anos, João chegou a pesar 147 kg (na foto com a mãe) e ouviu do médico: só a cirurgia salvaria sua vida. Começou a correr e não parou mais. Foto: Renato Pizzutto.

João sempre gostou de praticar esportes. Conta que o peso prejudicava o desempenho, mas nunca o impediu de jogar futebol, vôlei ou basquete com a turma do colégio. “Como qualquer pessoa que está fora do padrão estipulado pela mídia, eu sofria bullying. Mas aceitava bem isso, entrava na brincadeira. Porém eu conheço todas as formas de bullying com gordo que existem.”

Ele sempre adorou desafios e, com o ultimato médico, cravou um número na cabeça: atingir os 100 kg. “Foi muito difícil porque eu estava prestando vestibular, então precisava organizar o dia para ir à academia. O lado bom é que eu tinha pouco tempo para pensar em comida.”

Foto: Renato Pizzutto.
Foto: Renato Pizzutto.

Uma verdadeira força-tarefa foi formada para que João atingisse seu objetivo: ele teve ao seu lado médicos e nutricionistas, os pais deixaram o cardápio de casa muito mais nutritivo e os amigos e até os pais dele faziam apostas para incentivá-lo, como dar tênis novos a cada meta de peso atingida. Quando ele resolveu começar a treinar, eles o levavam de casa até a academia, mesmo nos fins de semana. “Meus amigos foram essenciais. Mesmo correndo mais rápido, sempre me esperavam. O Lucas foi o que mais me ajudou no começo, e depois o Kadu, que agora é meu parceiro de treino.” Em 9 meses, João perdeu 65kg, chegando aos 82.

Hoje são seis dias de exercício por semana. “Eu só não pratico mais porque o corpo precisa descansar. Eu amo correr porque esqueço todos os problemas, me sinto bem, como se estivesse livre”, conta João, que também se deixou fisgar pelo lado competitivo do esporte. “Não com os outros, mas com você mesmo. Para uma pessoa gordinha, o lance da autossuperação é perfeito. Porque seu sucesso depende só de você.”

Ele não se lembra muito bem dos primeiros 5 km, mas fala com orgulho da primeira vez que completou 10 km. “Foi na pista de atletismo perto de casa. Eu fiz isso em 1h10, o mesmo tempo que eu levava para andar 5 km no começo.” Na Maratona de Revezamento do Pão de Açúcar, ele sentiu a emoção de estrear em uma prova. Correu 10,5 km. “Eu nunca tinha feito mais de 10 km, e esses 500m pareciam uma eternidade. Quase chorei no fim”, relembra. João conta que o mais especial foi ver a admiração nos olhos da equipe e da família ao vê-lo completar o percurso em 1h02.

Foto: Renato Pizzutto.
Foto: Renato Pizzutto.

No dia 10 de abril daquele ano, João e Kadu fizeram juntos uma meia maratona, algo que do alto dos seus 147 kg, em 2012, parecia totalmente impensável. “Fui treinando e me superando até o dia que fui fazer o teste de VO2 máximo [consumo máximo de oxigênio] e eu estava com nível de atleta. Só aí tive certeza de que ia conseguir.” Os dois fizeram os 21 km em 1h58min30. “Completamos, e isso é o mais importante.”

João conta que começou a correr para sobreviver, e depois para viver melhor. “Quando se é gordo, é difícil viver; você não cabe na cadeira, não passa na catraca do ônibus ou do metrô. O mundo não foi feito para gordo. Hoje eu trabalho melhor, tenho menos preguiça, sou muito mais ativo”. Atualmente, corre também para se superar. “Quero uma meia abaixo de 1h40 e também sonho com uma maratona. A corrida está sempre me desafiando.”

Macetes do João

> Coloque metas possíveis;

> Entenda que é preciso mudar os hábitos, aceite que o que você estava fazendo até agora não deu certo;

> Procure ajuda para entender a melhor maneira de atingir os seus objetivos;

> Se você quer atingir objetivos diferentes, faça coisas diferentes. Tomando as mesmas atitudes é impossível mudar;

> Não minta para você mesmo. Siga seus objetivos, e não se engane.

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