A importância da avaliação médica do corredor

Medicina esportiva pode prevenir diversos problemas de saúde comuns aos praticantes da corrida

Por Natália Guardieiro

O fato de o corredor praticar atividade física não significa que é saudável. Quem nunca ouviu falar de mortes durante ou após a prática de exercício físico? Apesar de não ser comum, é assustador.

O nome “maratona” surgiu em homenagem a primeira morte documentada de um corredor, associada ao exercício. Ocorreu com o soldado Pheidippides, que percorreu aproximadamente 40 km de Maratona (cidade) a Atenas e ao chegar ao seu destino, morreu.

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A prática de exercício físico regular, principalmente, o aeróbico, como a corrida, ajuda a prevenir muitas doenças cardiovasculares e a tratá-las. Ajuda no tratamento da hipertensão arterial, do diabetes, do câncer; e na reabilitação do coração pós-infarto. No entanto, o exercício pode ser o ponto-gatilho para desencadear a morte durante ou depois dele, em indivíduos que possuem doença cardíaca ou vascular desconhecidas.

O médico do esporte é quem está apto a avaliar os riscos cardíacos iminentes à prática do exercício, e pode tentar evitar morte cardíaca súbita desencadeada pelo exercício.

Tal médico deve saber diferenciar as alterações adaptativas no eletrocardiograma, decorrentes do exercício regular das alterações patológicas, e também diagnosticar doenças cardíacas. Sim, o corredor pode ter um eletrocardiograma específico dele, cheio de alterações normais que não representariam doença alguma.

Antes de realizar qualquer exercício, uma avaliação pré-participação esportiva deve ser realizada. O médico do esporte fará diversas perguntas sobre história própria do paciente e sobre sua história familiar; fará um exame físico detalhado, buscando estratificar riscos relacionados ao exercício e identificar doenças desconhecidas, que causem perda de performance . Quando necessários, exames serão solicitados.

Para avaliação cardíaca, são comumente solicitados eletrocardiograma, e de acordo com idade e fatores de risco, ecocardiograma e teste ergométrico.

O exame ideal e mais completo é o teste cardiopulmonar ou teste ergoespirométrico. Esse teste avalia a capacidade aeróbica do indivíduo, ajuda na programação do treino do corredor, com base na frequência cardíaca, verifica metabolismo energético, função pulmonar, avalia risco de arritmia e de doença coronariana.

Para avaliar doenças crônicas comuns, como diabetes, anemia, dislipidemias (lipídios sanguíneos aumentados), problemas renais e tireoidianos, são solicitados exames laboratoriais (sangue e urina), os quais, quando alterados, podem causar queda no rendimento do exercício e fadiga.

Para avaliar risco de lesão osteomuscular, analisa-se a biomecânica da corrida.

O médico do esporte também identifica lesões ou dores musculares e as trata.

Para avaliar composição corporal, pode ser solicitada bioimpedância (verifica quantidade de gordura e de massa muscular), a qual pode ajudar na melhoria da composição corporal do corredor, para evitar lesões musculares.

Enfim, a função do médico do esporte é avaliar o corredor globalmente, analisar fatores de riscos cardiovasculares, fazer avaliação da biomecânica do gesto esportivo, avaliar doenças apresentadas pelos praticantes, melhorar desempenho do corredor, prepará-lo para competições, prevenir e tratar lesões osteomusculares, tratar dor e usar recursos nutrológicos para evitar fadiga.

Realizada a avaliação, vamos correr e aproveitar todos os benefícios dessa prática, com segurança.

Natália Guardieiro
é médica do esporte com residência na Universidade de São Paulo (USP), especializada em fisiologia do exercício, nutrologia e dor. Trabalha na clínica Move (SP), acompanhou atletas de alta-performance na Copa do Mundo 2014 e nas Olimpíadas de 2016. Praticante de esportes como boxe, ciclismo e yoga, acredita no exercício físico como parte da medicina. 
Entre em contato em: (11) 975580047 ou  contato@nataliaguardieiro.com.br