Isso sim é longão!

Em uma década de aventuras, Manu Vilaseca se tornou um dos principais nomes brasileiros na corrida de montanha

Foto: Tucutun/Gemma Pla.

Por Maria Clara Vergueiro*

Em 2003, Manuela Portas Vilaseca experimentava pela primeira vez uma prova de corrida. Escolheu, em um dia quente, os 5 km de um evento no Aterro do Flamengo, cartão postal do Rio de Janeiro, sua cidade de origem. A carioca, então com 20 e poucos anos, corria curtos períodos na esteira e começava a descobrir os prazeres da vida ao ar livre com sua mountain bike recém-adquirida. Passou pouco menos da metade daqueles 5.000m pensando em desistir, por causa de fortes dores no joelho. Caminhou, forçou a barra, cruzou a linha de chegada e marcou uma consulta com um ortopedista que, enfático, desaconselhou a moça a correr. Na verdade, indicou que esquecesse a corrida. “Nem 10 km?”, perguntou ela desolada. “Nem 10 km”, respondeu  o médico.

Corta para 2013. Outra linha de chegada e um cenário bem diferente da sofrida estreia na Guanabara: a perseverante corredora de montanha abre os braços para a multidão que a aplaude em Chamonix, na França, depois dos 170 km da Ultra-Trail du Mont-Blanc (UTMB), prova mais importante do mundo das ultramaratonas de montanha, modalidade que une trilhas rústicas, altitude, desníveis assombrosos e exige muita, mas muita resistência e humildade (além, claro, de preparo físico e psicológico absurdo).

Foto: Tucutun/Gemma Pla.

Naquela ocasião, apenas sete mulheres, entre centenas de inscritas, chegaram antes dela. O doutor pessimista estava errado. Ou talvez ela tenha inventado a própria cura. “Nunca mais voltei naquele médico. Procurei um outro, que cuidou do meu joelho com um tratamento alternativo”, conta Manu, atualmente uma das principais atletas brasileiras de corrida de montanha no cenário internacional em provas de até 170 km, disputadas ao lado de grandes nomes do circuito europeu e norte-americano.

Ao longo de dez anos, as distâncias e os modelos de competições foram mudando: os primeiros 5 km viraram meias maratonas, um meio Ironman virou Ironman inteiro, a corrida de rua virou corrida de aventura. Manu entendeu rapidamente que seu maior talento esportivo estava diretamente ligado à sua personalidade: foco e resiliência se somaram a uma resistência física muito maior do que ela imaginava. “Rendo melhor nas provas longas, não sou explosiva. Além disso, nas curtas, não dá para curtir direito. Toda vez que eu largo para uma ultramaratona sei que vou viver uma história. É uma experiência minha, isso me fascina”, traduz.

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Na primeira competição de montanha que disputou, a La Mision, de 160 km, na Patagônia argentina, saiu campeã. Menina muito tímida na infância, aprendeu a fazer amigos, socializar e se comunicar graças ao esporte, principalmente durante as corridas de aventura, em que quartetos mistos precisam passar dias unidos para vencer os desafios impostos pela natureza e pelo cansaço físico. “Com certeza meu ponto forte é a cabeça, minha capacidade de superar os momentos difíceis, aguentar a dor, o desconforto”, avalia Manu.

Foi com essa resiliência que Manu se descobriu capaz de concluir percursos dificílimos e longuíssimos quando o estômago ou as pernas não quiseram colaborar. Recentemente, durante uma prova de 110 km, ela se viu obrigada a parar faltando apenas 10 km. Não conseguia mais comer nada e sustentar o corpo em pé. Parou, dormiu, ingeriu alguma coisa e se arrastou para completar a prova. “É surreal, mas às vezes não dá para dar nem mais um passo, ainda que falte muito pouco e que já se tenha percorrido quase toda a distância”,
explica.

Seu maior desafio tem sido administrar a alimentação durante intermináveis horas de esforço físico, uma tarefa inglória para boa parte dos atletas dessa modalidade: de um lado, a ingestão de géis por muito tempo termina por atacar o estômago; de outro, a digestão de alimentos in natura não é tão simples nesse contexto. O segredo, segundo a atleta, é comer aos pouco e com frequência, alternando tipos diferentes de alimentos. “Uma vez ouvi que uma ultramaratona é uma prova de nutrição com corrida no meio. Concordo plenamente”, diverte-se.


Manu em números 

Em cinco anos disputando corridas de montanha, a atleta acumulou resultados expressivos 37 ANOS
38 PARTICIPAÇÕES EM PROVAS DE TRAIL RUN
35 VEZES TOP 10
27 VEZES TOP 5
12 VITÓRIAS
170 KM É MAIOR DISTÂNCIA PERCORRIDA DE UMA SÓ VEZ
US$ 500 – É SEU MAIOR PRÊMIO EM DINHEIRO


Estômago e cabeça são capazes de operar milagres nas longas distâncias. Esta segunda é a grande aliada de Manu e não costuma falhar nunca. A moça aprendeu a administrar os altos e baixos dos percursos, procurando não dar muita ênfase nem quando tudo vai às mil maravilhas, nem quando o fim do mundo parece estar mais próximo que o pórtico. “Na vida também é assim, certo? Nada dura para sempre. Então eu sempre penso que vai passar, e também não deixo de estar alerta só porque o corpo está respondendo bem. Procuro concentrar meus pensamentos no momento presente, vivendo o que está acontecendo ali mesmo: a paisagem, os horários de comer, a hidratação, o GPS, o terreno que estudei antes de largar, tudo isso preenche a cabeça”, explica. “Já quando as coisas não vão bem, os pensamentos vão para aqueles que estão esperando a minha chegada, que torcem por mim.”

Como deixar o longão menos monótono?
Foto: Tucutun/Gemma Pla.

Há menos de um ano, ela deixou para trás o Rio de Janeiro, a família, o emprego, os amigos e treinadores, depois de uma temporada de três meses competindo na Espanha, e se jogou em uma investida ousada: viver em um vilarejo espanhol de 5.000 habitantes, com o então novo namorado, que ela “pescou” no meio de mais de 2.500 pessoas, na largada de outra edição da UTMB. “Encontrar o Gerard foi o último dos sinais que eu precisava para mudar meu rumo. Voltei para o Rio e em dois meses fechei meu negócio [uma loja de design e decoração], vendi tudo o que eu tinha e embarquei de volta para a Espanha com duas malas. Fui com a cara e a coragem”, resume.

Trocar as duas horas diárias de trânsito e a insegurança das ruas cariocas pela vida pacata e cercada de montanhas em Moià, a cerca de uma hora de Barcelona, foi fácil. “Saio para correr em trilhas, e a qualidade dos treinos aumentou muito porque no Rio, durante a semana, eu só corria no asfalto”, conta Manu, que também é adepta do mountain bike para recuperar a musculatura e acumular rodagem.


Ela não é fraca não!

Conheça algumas conquistas de Manu no trail run

La Mision, Patagônia argentina, 160 km
1º lugar no feminino e 6º no geral

Ultra-Trail du Mont- Blanc (UTMB), Alpes, 166 km
8º lugar no feminino

Endurance Challenge, Chile, 80 km (2013), Argentina, 80 km (2014), Chile, 160 km (2014)
Campeã

Ultra Fiord, Patagônia chilena, 70 km
Bicampeã

Trail del Viento, Argentina, 50 km
Campeã

Vulcano Ultra Trail, Patagônia chilena, 100 km
Campeã

Ultra Trail World Tour 2015
8ª colocada na soma dos resultados: 5ª na Transgrancanaria (125 km), 5ª na Lavaredo (120 km) e 10ª na Ultra-Trail du Mont- Blanc (170 km)


Difícil mesmo foi a adaptação à nova realidade: apesar de ter ascendência espanhola, Manu não falava uma palavra de catalão (idioma oficial da região), não conhecia ninguém além de Gerard e não tinha emprego. Começou do zero e correu atrás. De manhã, corre nas montanhas, um treino mais rodado, ainda sem muito investimento em explosão e, sim, no desnível. À tarde, prepara as aulas de inglês que ministra das 16h às 20h em um colégio, com a destreza de quem aprendeu a língua junto com o português na Escola Americana do Rio de Janeiro, onde estudou até o fim do ensino médio. “Agradeço até hoje essa escolha dos meus pais! O inglês sempre me abriu muitas portas”, pontua a atleta, que é designer de formação, com mais de 15 anos de atuação na área.

8 formas de aumentar o longão

Hoje já está com “o trem de volta nos trilhos”, como gosta de dizer, mas a adaptação à nova vida resultou em um ano esportivo relativamente sabático. “É preciso muita humildade para começar tudo de novo, dar um passo de cada vez, entender que tem dias muito ruins e outros que está tudo ótimo. Este virou o meu lema: #eachdayisalife, ou cada dia é uma vida”, pondera a mais nova integrante do time de corredores de montanha da marca Buff, do qual também fazem parte o namorado, Gerard Morales, e o treinador, Pau Bartoló.

Agora que tem uma estrutura a seu favor, tudo que a carioca quer é montar um calendário divertido para 2017, que dê tempo ao seu corpo para a preparação e a recuperação entre cada prova. “Demorei muito para admitir para mim mesma que eu era uma atleta, principalmente porque o esporte sempre foi e continua sendo o meu hobby”, diz. Ainda assim, Manu continua com o “complexo de Super-Homem” que ela sempre teve: levando uma vida dupla, trocando a roupa de corrida pela de trabalho. Nessa aparente contradição, ela encontrou a liberdade e o equilíbrio necessários para ser a dona das próprias trilhas.

Foto: divulgação/Buff

Magrela Amiga

Antes da corrida, veio a bicicleta. Hoje o mountain bike é um aliado importante nos treinos de Manu e de muitos outros atletas do trail run. Inspire-se!

DIVERSÃO E TÉCNICA
“Acho engraçado pensar que hoje eu seja tão apaixonada pelo enduro [modalidade bem técnica, que costuma conquistar os amantes do downhill] porque, quando comecei a pedalar em trilhas, morria de medo. Chegava toda machucada em casa e minha mãe ficava horrorizada. Eu caía muito e tinha muito medo de pedalar em singletracks [trilhas estreitas] porque não tinha técnica. Hoje é onde eu mais me divirto com uma mountain bike. É um treino mais lúdico, quase esqueço que estou treinando.”

TREINO ESPERTO
“A bike me ajuda a acumular quilômetros sem o risco de lesão, como existe na corrida. É um treino de fortalecimento em que posso acumular horas, trabalhando uma musculatura diferente. Isso me ajuda a ganhar força e capacidade de reação. Pedalar em trilha requer uma boa leitura de terreno, como no trail run. É importante saber olhar lá na frente e reagir muito rápido quando surge um obstáculo. Considero um excelente complemento.”

GIRO BÁSICO
“Em uma semana que antecede uma prova, procuro não pedalar tanto porque de certa forma sinto as pernas mais pesadas, e isso não é bom para correr. Para construir minha base, aí, sim, pedalo bastante, assim como durante a recuperação pós-prova. Normalmente na semana depois de uma ultra, eu pedalo quase todos os dias. Ajuda a remover todas as ‘coisas ruins’ que acumulamos correndo tantos quilômetros e acelera a recuperação.”

*Colaborou Harry Thomas Junior

  • Valmir Lana Jr.

    Ótima matéria! Sempre bom ler sobre a Manu! Uma atleta que inspira as pessoas… ainda ontem conversava com o o Giuliano Bertazollo sobre como ela anda sumida, acompanhei a Transgrancanária e fiquei muito feliz com o desempenho dela, tomara que sirva de incentivo para a temporada que está apenas começando!!!

    Bons treinos, Manu, estamos aqui na torcida! Abraço! 😉