50 anos depois de começar uma revolução, um ícone volta a correr a Maratona de Boston

Em 1967, não permitiram que Kathrine Switzer corresse a prova, mas ela completou os 42 km mesmo assim. Este ano, ela está de volta

Foto: Hagen Hopkins.

Por Amanda Loudin

50 anos atrás, uma esperta morena de 20 anos pisou no percurso da Maratona de Boston pela primeira vez como “uma peregrina indo ao santuário”. Ela não tinha grandes planos naquele dia, apenas queria correr a histórica maratona. Em 2017, Kathrine Switzer, agora com 70 anos, vai se alinhar novamente para correr em Boston, mas o cenário será muito diferente. Ela estará cercada por cerca de 14 mil mulheres, quase metade do total de corredores, em vez de ter que se esgueirar na largada.

Dessa vez, ela se inscreveu usando seu nome completo em vez das iniciais “K. V.” como fez em 1967. E ela poderá correr com a confiança de que ninguém vai tentar pará-la apenas porque ela é mulher, como o diretor da prova, Jock Semple, fez 50 anos atrás.

Uma coisa, porém, permanecerá igual. Seu número de peito – o mesmo que Semple tentou arrancar de seu peito enquanto tentava expulsá-la da corrida – será 261 novamente.

Em sua primeira vez, Switzer tinha corrido 7,2 km quando Semple tentou tirá-la – fisicamente – do percurso. “Ele alegou que a corrida era ‘apenas homens’ e que eu não tinha permissão para correr”, Switzer conta. “Ele estava muito bravo que eu tinha conseguido um número e perdeu a paciência”. O técnico de Switzer, Arnie Briggs, e seu namorado na época, Tom Miller, estavam correndo ao seu lado e rapidamente interferiram. Depois da confusão, a corredora continuou e finalizou a prova em 4h20, tornando-se a primeira mulher a fazer isso com um número de peito.

Foto: Boston Herald.

“Por um tempo após a intervenção de Semple, eu fiquei preocupada e nervosa, e perdi muita energia”, diz. “Mas, devagar, essa energia voltou e, perto do final, eu estava me sentindo muito bem, determinada a terminar a prova”.

Foi apenas mais para o final da tarde, na viagem de ônibus – de cinco horas – de volta para a sua faculdade, a Syracuse University, que ela percebeu a agitação que causou. “Nós paramos para um café e vimos os jornais – minha história estava em todos os lugares. No meu coração, eu sabia que a maratona tinha me mudado e que o incidente no percurso tinha me radicalizado o suficiente para que eu quisesse lutar por mudanças para as mulheres no esporte”, conta. O que começou como uma tentativa de correr os 42 km de forma “invisível”, logo se transformou em uma mudança imparável.

Para Switzer, Boston foi apenas o começo. Ela venceu a Maratona de Nova York em 1974 e, no ano seguinte, conquistou seu recorde pessoal de 2h51 em Boston, o que a colocou na sexta posição no mundo.

Boston lançou sua carreira na corrida e também acendeu uma faísca em Switzer para tornar-se uma defensora dos direitos das mulheres nos esportes. Em 1977, ela criou o Avon International Running Circuit, uma série global de corridas para mulheres que eventualmente cresceria para 400 provas em 27 países.

Com o sucesso do circuito de corridas, Switzer levou seus esforços para as Olimpíadas, ajudando a garantir a primeira maratona olímpica feminina em 1984 nos Jogos de Los Angeles. “A maratona olímpica feminina abriu portas para muitos outros eventos para mulheres e ajudou a aumentar o número de participantes do sexo feminino em todos os esportes”, ela afirma. “Mais importante, inspirou pessoas ao redor do mundo a abraçarem estilos de vida saudáveis e produtivos”.

Esse tipo de resultado está no centro de anos de defesa dos direitos das mulheres. “A corrida e esportes em geral  são transformadores”, explica. “Quando uma mulher descobre sua própria força, isso é empoderador. Ela acredita em si mesma e sabe que pode mais. Isso muda tudo”.

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Enquanto ela se prepara para correr a Maratona de Boston novamente este ano, Switzer continua combinando esporte e defesa dos direitos das mulheres. Seu último projeto, 261 Fearless (nomeado  assim por causa de seu número de peito original), junta mulheres ativas por meio de uma comunidade de corrida. Envolvendo clubes de corrida, eventos não competitivos, um site e um fórum só para mulheres, o objetivo é alcançar mulheres com diferentes histórias de vida e de lugares diversos no mundo.

Ela levará com ela para Boston cem mulheres – e 7 homens – como parte de um esforço para arrecadação de fundos para o projeto. “Muitas mulheres no mundo ainda vivem em situação de medo e o 261 procura ajudá-las a se empoderarem”, ela conta. “Esses homens, e a maioria dos corredores, entendem e apoiam nossa meta de inclusão e igualdade”.

A Maratona de Boston será um evento muito diferente para Switzer do que foi 50 anos atrás. No dia da prova, ela vai colocar seu número de peito amarelo e azul em honra da igualdade e dos direitos para cada mulher. Enquanto a corredora acredita que ainda há um longo caminho a percorrer no mundo quando se trata de mulheres correndo, ela reflete no momento do esporte nos Estados Unidos com orgulho. “Se jovens mulheres hoje subestimam o fato de que podem competir da mesma forma que os homens na corrida, isso é fantástico. É o que queríamos quando começamos a trabalhar por aceitação no esporte”.

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