Corre, mamãe!

A mamãe corredora Fabiana Gomes, mãe de dois filhos, perdeu 37 kg em oito meses com corrida.

Créditos: Diego Cagnato

Conheça a história da mãe corredora ainda conseguiu se tornar uma atleta de elite mesmo com a rotina puxada.

Por Patricia Beloni

Fabiana Ferreira Gomes tem 37 anos e é mãe do Arthur, de 2 anos, e da Giovana, de 8 anos. Na primeira gestação, ela foi de 64 kg para 74 kg e não conseguiu perder nada dos quilinhos que ganhara.

Cinco anos depois, ela ficou grávida novamente e engordou mais 25 kg. Com os seus 1,59 metro de altura, ela ficou, então, com 99 kg. Três meses depois da segunda gestação, ela começou a sentir dores no ciático e no pulso.

“Eu não conseguia escovar os dentes. Não conseguia trocar a fralda do meu filho. Sentia formigamento nas mãos, dores de noite. Aquilo não estava certo. Foi quando resolvi que precisava cuidar da minha saúde e procurei um clínico geral”, conta.

Fabiana foi ao cardiologista, ao endocrinologista e ao ortopedista. Foi diagnosticada com síndrome do túnel do carpo (compressão do nervo do punho por causa da gordura), hipotireodismo (deficiência de produção de hormônio da glândula tireoide) e estratose hepática (gordura no fígado de grau 2), que poderia até desenvolver uma cirrose.

Tudo isso por causa do excesso de peso. Ela sabia que precisava perder peso, mas nunca havia obtido sucesso na tarefa. “Quanto mais eu queria emagrecer, mais comia. Eu me isolei, não me cuidava, não praticava nenhum exercício. Sempre fui gordinha, sempre lutei contra a balança”, lembra.

Até chegou a tomar medicações para diminuir a ansiedade e ajudar na tarefa. Mas os efeitos colaterais sempre vinham aos montes. Ficava com sono, com preguiça, irritada, com a boca seca, taquicardia, sem apetite.

Sem contar que, quando parava de tomar os remédios, voltava a comer compulsivamente e engordava tudo o que tinha perdido. Não queria ter que passar por tudo isso mais uma vez. Foi aí, então, que lembrou da esteira empoeirada que tinha em casa.

Mãe que corre!

Também conhecida como a @eusoumaequecorre no Instagram, Fabiana começou a correr no começo de 2016. Mas não foi nada fácil. Ela enfrentou tudo e todos para conseguir. Os filhos tinham acabado de sair de problemas de saúde sérios – Giovana teve alergia à proteína do leite e Arthur teve bronquiolite.

Ambos passaram vários dias na UTI e precisavam de uma atenção especial. Sem o apoio do marido e com as responsabilidades de mãe, ela começou a correr na esteira de casa mesmo, antes de as crianças acordarem.

Assim, aos poucos começou a correr na rua. Fez amizades e tinha dias que se encontravam só para conversar. Era justamente correndo que ela conseguia forças para continuar. “A corrida limpa a mente, dá rumo, dá sentido, faz você repensar na vida.

Às vezes você está amargurada mas volta leve”, explica. Em três meses, ela já se arriscou e foi correr os 8 km da corrida feminina WRun. Terminava toda dolorida, assada. Só usava legging ou bermuda até o joelho, bata ou camiseta de manga comprida. Suava muito. Mas não desistiu e nunca deixou de cuidar dos filhos.

Por isso, começou a dormir mais cedo e contava com o apoio das amigas para cuidar dos meninos em dias de provas. “E as crianças adoravam”, conta. Quando voltava com as medalhas para casa, era uma festa.

E aí Fabiana percebeu que não tinha jeito. Ela precisava mudar também os hábitos alimentares. Começou por conta, aderindo à dieta low carb, ou seja, com baixo teor de carboidrato. A perda de peso aconteceu logo na primeira semana – foram 8 kg sozinha. Depois de dois meses, procurou uma nutricionista.

Excluiu farinha, branca e integral, açúcar, só consumia algumas frutas com menos açúcar, como ameixa vermelha, morango, kiwi, abacate. “No início é ruim. Tive um pouco de tontura. Dá crise de abstinência em alguns momentos, tremedeira, pressão cai, irritabilidade.

E quando batia aquela vontade louca de comer algum doce, eu apelava para rodelas de banana congelada, tipo sorvete.” Mas ela também descontava tudo no treino – corria todo dia e via que estava evoluindo, o que ajuda a tirar aquela necessidade de comer. “Isso vai passar”, pensava. E, conforme emagrecia, seu desempenho na corrida melhorava.

Mudança de vida

Assim, Fabiana foi tomando mais gosto pela atividade física. Decidiu, então, estabelecer um alvo: queria correr 10 km. No mesmo ano, ela fez a distância desejada na W21. Foi aí aqui sua a vida deu uma virada.

Não seguia uma planilha, não sabia o que era tiro, intervalado nem fartlek. Mas queria aumentar o volume de treino, queria acabar magra e sem lesão. Então contou com a ajuda de um treinador da China e conseguiu diminuir 10 minutos do pace.

Em 2017, Fabiana correu 15 km na Vênus. Foi a virada real da sua vida. Ela queria pegar os primeiros 10 lugares. Ficou em 7° geral.

“Foi a superação da batalha de mãe ter conquistado um lugar legal, estimulou muito. Agora vou treinar de verdade”, pensou. E daí para frente a dedicação só aumentou.

Incluiu treinos de velocidade quatro vezes por semana depois que se inscreveu para estrear na meia maratona. Queria bater seu recorde pessoal, emagrecer e evitar lesões. Depois de quatro meses de treinos de tiro, ela conseguiu alcançar o primeiro recorde pessoal: fez 15 km em 1h.

“Para quem começou trotando e fazia 4 km em 1h, foi uma vitória maravilhosa”, lembra. Ela só queria terminar a prova. Largou do último pelotão e fez sua primeira meia maratona em 1h49.

“Nunca imaginei que fosse conhecer pessoas que eu seguia na internet, dividir pódio com pessoas”, conta emocionada.

Recentemente, Fabiana correu 21 km no Desafio 28 Praias. Emagreceu 2 kg pra poder fazer a prova. Ficou em 3º lugar geral e conseguiu índice para correr como atleta de elite.

Mantendo a rotina e o peso

Em 2015, ela pesava 99 kg. Hoje Fabiana pesa 54 kg. “Nunca imaginei que fosse ter que comer para não emagrecer”, revela. No começo, a dieta era mais restrita, porque ela precisa mesmo perder muitos quilos.

Continua regrada, mas não deixar de comer alguma besteirinhas de vez em quando, não. Pizza e hambúrguer fazem parte do seu cardápio de vez em quando, mas aprendeu a comer com moderação. E nada de suplemento. O aliado mesmo é o jejum.

Chega a correr até 15 km sem comer nada e não passa mal. Em distâncias mais longas, consome só uma pasta de carboidrato, mas não gosta muito porque fica com a sensação de inchaço.

“Só como quando tenho fome mesmo. A nutricionista ensinou que a fome é a mesma coisa de fazer xixi e dormir. Só faz quando tem vontade”, brinca. E apesar de toda essa sua disciplina, ela não força a alimentação das crianças. Mas, com suas refeições mais regradas, ficou mais fácil de manter o cardápio mais saudável para eles.

Fabiana corre cinco vezes por semana na rua depois que deixa as crianças na escola pela manhã e duas vezes por semana faz musculação, abdominal, prancha e elevação, para auxiliar na corrida e evitar lesões.

Sua saúde melhorou tanto que nunca mais ficou gripada e a imunidade não caiu mais. E não se arrepende de nenhum dos esforços que precisa fazer todos os dias. Nem para cuidar dos filhos ou da casa.

“Tive que ter constância e disciplina e fazer muitas renúncias”, conta. “Depois que conhece a corrida, a mulher fica muito mais independente. Eu estou aprendendo isso na marra. Tive que mudar meu estilo de vida e aí comecei a cuidar mais de mim. E hoje a importância que isso teve foi além de mim mesma. É maravilhoso saber que alguém se estimula, se espelha em mim.”

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