Menos modismo, mais razão

A busca por qualidade de vida não deve ser sinônimo de busca por perfeição

Imagem: Davi Augusto.

Por Lelo Apovian*

Já parou para pensar que de tempos em tempos somos vítimas de modismos? Quem nasceu antes dos anos 1980 viveu em uma época em que fumar era bacana. Era descolado acender um cigarro com os amigos, o cowboy do comercial de TV era sexy. Depois que as leis ficaram mais rígidas, parte desses amigos foram segregados: viraram a “turma dos fumantes” ou os “amigos do cigarro”. É a galera do trabalho ou das festas que se une na varanda para fumar. A moda passou, mas a turma dos fumantes ficou.

Com o esporte foi similar. Eu sou da época em que não existia a consciência que temos hoje da importância da dieta balanceada e da atividade física na rotina – e olha que não sou tão velho assim, nasci em 1972. O boom da corrida veio conquistar milhões de sedentários, e criou-se a turma do esporte. São daqueles que sempre se encontram após o expediente para uma corridinha no parque e usam termos que só eles entendem: pace, longão, fartlek. Coisa de maluco mesmo.

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O bacana é que esporte e vida saudável deixaram de ser moda; percebemos que atividade física traz qualidade de vida. Então surgiu outro problema: a exclusão dos não esportistas, especialmente dos gordinhos, e a criação da galera fitness, que não perdoa quem não segue pelo mesmo caminho. Sim, faz bem buscar um corpo bacana e um estilo de vida mais saudável, mas isso não torna a pessoa melhor que o colega pesadão.

Não diria que uma pessoa magra tem vantagem sobre o gordinho em uma entrevista de emprego, por exemplo. Mas, talvez, no subconsciente de quem contrata role uma preferência pelos magros. Nada escancarado, mas há uma associação de pessoas em forma com menor propensão a problemas de saúde, maior agilidade e capacidade de trabalhar mais e se cansar menos. Em um pensamento mais torto, há profissional que acha que pega bem ter gente sarada na equipe.

Essa preocupação com a prática esportiva é uma tendência global. Mas a apologia ao corpo e à beleza está atingindo patamares insuportáveis e vem formando tribos cada vez mais intolerantes. Na minha opinião, não há nada mais chato que pessoas pensando e agindo da mesma forma. Falta de personalidade e modismo aborrecem e emburrecem. Não existe o certo ou o errado, mas o que faz a gente feliz.

Talvez uma pessoa ativa e saudável tenha chance de alcançar a felicidade e o sucesso corporativo rapidamente, mas estou certo de que não é só isso que faz a diferença. Tomara que essa moda do corpo perfeito passe como a do cigarro, e a inteligência seja a razão que nos mova em direção ao caminho certo.

*Executivo, ex-atleta olímpico e maratonista amador com 2h36min29

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