O mestre da maratona

O engenheiro Cesar Augusto Martins terminou Boston em 2h25min15 e foi o 5º melhor corredor acima de 40 anos

Cesar Augusto Martins na Maratona de Boston 2017. Foto: arquivo pessoal.

Por Thuany Coelho

Cesar Augusto Martins pode nunca ter corrido profissionalmente, mas alcançou uma marca em Boston que o aproxima mais da elite do que da grande massa de amadores que participaram da maratona. O brasileiro completou a prova em 2h25min15 – pace médio de 3min26/km – e foi o melhor entre os homens na faixa de 45 a 49 anos. O engenheiro ainda ficou em 5º na categoria Master da prova – para atletas acima de 40 anos e que tem premiação como da elite. Ele dividiu o pódio no grupo com ninguém menos que Meb Keflezighi – vencedor das maratonas de Nova York e Boston em 2009 e 2014, respectivamente -, que teve o 2º melhor tempo na categoria Master.

Cesar tem 45 anos, corre desde os 15 e tem um recorde pessoal nos 42 km de 2h23min16, conquistado em Houston em 2015. Para a Maratona de Boston, ele começou a treinar em janeiro, seguindo planilha do treinador Adriano Bastos. Para melhorar a marca em Boston – ele também participou da prova no ano passado -, investiu em subidas nos longões. E deu certo. Confira a preparação dele:

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Como foi seu treinamento para a prova?

Eu treino com o Adriano Bastos há vários anos. Para essa maratona especificamente, venho trabalhando desde janeiro. Comecei fazendo treinos básicos, seguindo o que o Adriano me passa, com foco total para essa maratona. Até meio de fevereiro fiz treinos básicos, depois comecei a fazer treinamento mais específico para ganhar velocidade, aumentando o volume. Não foi a primeira vez que eu segui esses treinos, mas dessa vez rendeu bem. Até falei para o Adriano que eu tinha chance de melhorar meu tempo nesta maratona, porque havia encaixado bons treinos.

Qual tipo de treino foi fundamental?

Eu treinei subidas, por exemplo, porque eu sei que essa prova tem. Eu corri essa prova ano passado, mas não corri bem [ele a fez em cerca de 2h34]. Apesar de até ter tido um resultado razoável, não senti que eu rendi o que poderia. Então, esse ano, eu já conhecia a prova, sabia que ia estar fazendo um pouco de calor e acho que a dificuldade dela é o sobe e desce. Fica o tempo inteiro subindo e descendo. Então, principalmente nos meus longos, eu fiz treinos assim, pegando subidas e até mesmo descidas para ir acostumando com esse negócio de acelerar um pouco o batimento, daí recuperar na descida. Percebi que ano passado faltou um pouco disso, mas nesse ano funcionou bem.

Qual foi sua estratégia na prova?

Por causa da temperatura não estar muito boa – um pouco mais de 20ºC – e também pelo fato de ter muito sobe e desce, não dá para ficar pensando muito em ritmo, tem que perceber o que seu corpo está pedindo para você fazer e tentar controlar o esforço e não o ritmo. Não ficar olhando tanto para o relógio. Então tentei controlar meu esforço, porque sabia que no final as pernas iam sentir bastante por causa do sobe e desce. E foi isso mesmo. Nos últimos quilômetros, minhas pernas estavam bem trituradas, mas, como faltava pouco, eu sabia que dava para chegar.

O que você acha que foi determinante para o seu tempo?

Acho que um pouco é talento, mas tem muito a ver com dedicação. Eu comecei a treinar para Boston em janeiro e não perdi nenhum treino. Treinei de janeiro até a véspera da maratona todos os dias, descansando uma vez por semana só. Eu só tenho tempo para treinar uma vez por dia, mas nesse tempo que eu tenho eu capricho, faço meu melhor possível.

Você tinha esse tempo em mente?

Eu não tinha um tempo em mente, porque, como disse, é uma maratona em que não dá para pensar muito em ritmo. Eu sabia que ia correr abaixo de 2h30, mas não o tempo exato. Isso a gente vai sentindo ao longo da prova. Não dá para adivinhar ou prever. Mas foi um tempo muito bom, meu segundo melhor. Meu melhor tempo foi na Maratona de Houston em 2015, em que fiz 2h23min16. E em Nova York, em 2013, fiz um tempo parecido com o de Boston: 2h25min18.

Cesar já com a medalha da prova. Foto: arquivo pessoal.
Como você concilia o trabalho com os treinos?

Eu trabalho como gerente de projetos em uma multinacional de tecnologia e normalmente faço home office, então evito de pegar trânsito, por exemplo, e daí sobram algumas horas por dia. E como começo às 11h, tenho a manhã para treinar. Mas não é fácil, normalmente trabalho 9, 10 horas por dia. Então, vou até mais tarde à noite para compensar ter começado esse horário e para bater o fuso horário também, porque trabalho com um pessoal dos Estados Unidos e tem uma diferença de umas quatro horas.

Faço dois treinos por semana em pista, eu treino na pista do estádio do Morumbi de terça e quinta-feira. E de segunda, quarta e sexta eu treino na Praça Vinícius de Moraes. E aos sábados normalmente vou para a USP para fazer o treino longo com o pessoal do Adriano Bastos. Domingo é meu dia de descanso. Normalmente é assim, mas nem sempre o trabalho permite. Às vezes, não consigo treinar tão cedo, preciso ir um pouco mais tarde, enfim, ou às vezes tenho que ir mais cedo. Já precisei mudar de lugar, treinar em outro local, porque tenho reunião ou algo para fazer longe. Eu consigo encaixar na rotina, mas com certeza tem sacrifícios com esposa, filhos. Eu que deixo minha filha na escola, então também tem essa logística.

Quantas maratonas você já fez?

Não lembro de cabeça quantas já corri, mas foram mais de dez. Eu procuro correr uma maratona por ano. Teve ano em que não corri nenhuma, mas a média é uma por ano, que é o que consigo fazer para poder me preparar do jeito que eu gosto. Eu gosto muito de treinar, de me preparar para tentar fazer minha melhor performance.

Confira as parciais de Cesar:

Km 5: 16min57 (3’23”/km)
Km 10: 33min49 (3’22”/km)
Km 15: 50min46 (3’23”/km)
Km 20: 1h07min52 (3’23”/km)
Km 21,1: 1h11min38 (3’23”/km)
Km 25: 1h25min13 (3’24”/km)
Km 30: 1h42min51 (3’25”/km)
Km 35: 2h00min36 (3’26”/km)
Km 40: 2h17min39 (3’26”/km)
Km 42,2: 2h25min15 (3’26”/km)

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