Pela comida de verdade

Estão tentando tirar o prazer da nossa vida em nome do "saudável". Esquecem que o gostoso faz um bem...

Imagem: Davi Augusto.

Por Patrícia Julianelli

Para você, o que é ser saudável? Esta é uma palavra tão propagada hoje em dia que poucas vezes paramos para pensar no seu significado. E o que eu percebo cada vez mais é que o seu significado é pessoal e intransferível.

Para mim, não é saudável espaguete de abobrinha. Nem de pupunha. Não vejo problema em dar o nome pela similaridade com o macarrão nem em servi-lo como acompanhamento. Mas usá-lo como substituto do original, como se o original fosse pecado capital, isso eu não engulo.

Eu não acho saudável brigadeiro de whey protein. E nem é porque a proteína isolada do soro do leite pode trazer riscos à saúde se consumida em excesso. Mas porque ela é ruim mesmo e estraga qualquer receita. Uma coisa é ter uma meta de performance e incluir o whey no shake como estratégia de suplementação (sempre sob supervisão de um nutricionista). Você fecha o olho, bebe e foi! Agora estragar um clássico da larica, um doce com tantas memórias afetivas, que remete a festas, a alegria para fazer dele mais um item fit do cardápio? Só digo uma coisa: preguiça.

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E me perdoem os adeptos, mas jamais, em sã consciência, vou colocar manteiga no café em vez de no pão quentinho, com fumacinha saindo de dentro dele. Pão não é alimento do demo. Assim como manteiga e gordura saturada também não. Aliás, são excelentes para dar saciedade. Mas não é porque um pouco de alguma coisa faz bem que um monte não fará mal. E o tal “café à prova de bala” logo cedo tomaria o lugar da mais nutritiva e acolhedora das refeições. Na boa: tanto lugar bacana para colocar manteiga e óleo de coco, precisa ser no cafezinho? Isso lá é jeito de dar bom dia para o corpo?

A obsessão em transformar toda a refeição em algo nutricionalmente correto é tanta que acaba deixando muita gente doente. Hoje tudo precisa ser funcional. Mas me diga: que alimento não tem função alguma? Claro que há opções repletas de benefícios para a saúde e outras nem tanto. Mas nesse anseio de manipular cada grama que ingerimos, muitas vezes o prazer se perde no caminho. Exemplo máximo disso é o Soylent, marca de bebidas, pozinhos e barrinhas que a princípio trazem todos os nutrientes dos quais precisamos durante todo o dia. Isso mesmo: nem precisaríamos mais comer comida. Fico sem palavras.

Há um ano, quando meu filho começava a engatinhar, coloquei protetores em todas as quinas de casa. E ele tirava um por um. Meu grande amigo Serginho Xavier disse: “De que adianta criar um mundo artificial para seu filho se lá fora ele terá que aprender a lidar com quinas?”. É bem isso. A vida real tem quinas. E brigadeiro, pão e macarrão. Vamos aprender a conviver harmoniosamente com eles.

Pelo menos no meu dicionário, saudável é o que faz bem. Para todos os órgãos do corpo, inclusive para o coração.

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  • Raphael Marzano

    Uau! Quanta coisa positiva escrita. Concordo plenamente. Ser saudável/ “fitness” e feliz é possível. Não podemos anular os prazeres – é vivenciando-os que aprendemos dosar as quantidades. Precisamos nos permitir e a partir disso encontrar os nosso limites que, como bem pontuado no texto, são pessoais.