Ilustrações e letterings: Ale Kalko

Por Daniela Fescina e Thuany Coelho (com Michelle Hamilton)
Ilustrações e letterings: Ale Kalko

Quando Rita de Cássia Araújo saiu cedo para correr no dia 6 de outubro de 2015 no Morro do Moreno, em Vila Velha (ES), não esperava nada mais do que uma manhã normal de treino. A capixaba estava acostumada a correr no local e precisava treinar em subidas para encarar o Desafio das Serras no mês seguinte em Ubatuba (SP). “Estava na trilha e comecei a ouvir barulhos, mas quando eu virava só via o mato mexendo. Como eu conhecia bem ali, decidi pegar outra trilha e, quando vi, um homem estava bem atrás de mim. E ele corria bem, porque eu estava em um ritmo rápido e mesmo assim ele vinha logo atrás”, conta a ultramaratonista.

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Quando o homem a alcançou, bateu com um pedaço de madeira na cabeça da corredora. “Foi tudo muito rápido. Caí e acho que meu corpo bateu nele, que tombou para trás. Consegui levantar e saí correndo. Corri mais uns 3 km com sangue escorrendo até que encontrei uma mulher levando uma criança para o colégio e ela me socorreu. Ele ainda estava atrás de mim, mas quando a viu mudou de direção.” Rita chegou a prestar queixa e fazer corpo de delito, mas o agressor não foi encontrado. Sobre o motivo do ataque, ela desconfia que não se tratava de um assalto. “Acho que ele queria me apagar mesmo e depois fazer maldade”, conta.

73% das corredoras disseram ter sido assediadas ao menos uma vez durante os treinos*

*De uma pesquisa online feita com 762 seguidoras de Runner’s World Brasil nas redes sociais.

Depois da denúncia, a corredora de montanha de 49 anos descobriu que não era a primeira vez que algo parecido acontecia no morro. Duas semanas antes, uma menina havia sido perseguida, mas o caso não ganhou alarde. “Se eu soubesse o que estava acontecendo ali, não teria ido sozinha de jeito nenhum.” Hoje o Morro do Moreno tem posto policial e está mais seguro, conta Rita. Mesmo assim, ela não treina mais sozinha, independentemente do lugar. “Tenho a sensação de que há alguém me seguindo. Então sempre vou com um homem. Só eu e mais uma mulher ainda não dá.”

Apesar do caso de Rita ser mais extremo – sua integridade física correu perigo –, podemos afirmar que a maioria esmagadora das brasileiras convive com o medo ao andar (ou correr) sozinha na rua. De acordo com uma pesquisa do Instituto YouGo, 86% das brasileiras já sofreram assédio em público, sendo 77% assovios, 74% olhares insistentes, 57% comentários de cunho sexual e 39% xingamentos. Metade dessas mulheres afirmou que já foram seguidas na rua; 44% já tiveram o seu corpo tocado, 37% relataram que homens se exibiram para elas e 8% foram estupradas em espaços públicos. Quando questionadas sobre qual situação gerava mais medo, 70% das entrevistadas afirmaram que era ao andar pelas ruas que elas se sentiam mais vulneráveis. Ou seja: quase todas as mulheres do nosso país já foram assediadas na rua. E o assédio também acontece quando as mulheres saem para correr em espaços públicos.

Imagine estar correndo na rua e alguém buzinar sem motivo algum. Seus batimentos cardíacos aceleram, você fica alerta e lamenta o fato de que um completo estranho perturbou sua agradável corrida. Agora visualize a paz de uma estrada tranquila no interior e como essa paz pode evaporar quando um desconhecido em um carro começa a te seguir. Então pense que seu perseguidor abaixa a janela e faz propostas e comentários sexuais – daqueles que várias mulheres já ouviram durante uma corrida. Assustador.

Todos esses cenários, e também comportamentos ilegais como mostrar o pênis e tentar agarrar alguém à força, se encaixam no espectro de assédio. “O assédio na rua invade o espaço e os direitos de uma pessoa”, afirma Debjani Roy, vice-diretora da ONG norte-americana Hollaback!. Isso não é somente irritante ou inconveniente – um corpo crescente de pesquisadores indica que assédio crônico pode afetar a confiança de uma mulher e agravar problemas como depressão, ansiedade, baixa autoestima e transtornos alimentares.

Esse medo tira das mulheres algumas das grandes vantagens da corrida: a de aliviar o estresse e escapar dos problemas do dia a dia. Elas até saem para correr, mas muitas vezes se pegam olhando o tempo todo para trás, mudando o caminho, procurando parceiros de corrida, optando por outro horário — tudo para tentar minimizar riscos e inconvenientes. Michelly Honda, 28 anos, de Valparaíso de Goiás (GO), decidiu mudar de rota depois de um episódio em que dois rapazes ficaram falando obscenidades e fazendo gestos com as mãos enquanto ela passava por eles correndo. “Comecei a correr próximo a um batalhão da polícia. Mesmo assim, um dia estava treinando e um ciclista veio por trás e passou a mão na minha bunda e depois ficou olhando para trás e sorrindo. Eu me senti tão mal… Agora só corro acompanhada e com blusas e calças largas para tentar não chamar a atenção. Tenho muito medo de qualquer homem e carro que se aproximam”, relata Michelly.

Há mulheres que vão além: deixam de correr ao ar livre pensando na segurança. Em uma pesquisa realizada pela campanha Chega de Fiu Fiu em 2013, das 7.762 mulheres ouvidas, 81% afirmaram que já deixaram de fazer alguma coisa por medo de assédio. “Já fui assediada verbalmente e recebi olhares constrangedores por usar roupa de academia na rua. Não corro na rua por medo de assédio, só na esteira ou dando voltas no meu prédio”, conta a paulistana Giovana Silveira, de 21 anos. O que também incomoda Deborah Junqueira, 40, de Bauru (SP), é ter que ficar alerta o tempo todo para tentar se adiantar aos assediadores. “Estava perto de casa e era fim de tarde, claro ainda, e vi uma gurizada de bicicleta mais à frente. Parei, pensei, dei meia-volta. Incomoda-me esse medo prévio. Pode não acontecer nada, mas vou arriscar?”

O assédio é generalizado e perturbador, e há grandes chances de acontecer com você ou alguém que você conhece. É o homem que olha a mulher de cima a baixo enquanto ela passa por ele correndo. O motorista que grita algo e ri com os amigos conforme acelera. O homem em uma bicicleta ou carro que segue a mulher e faz com que ela mude o caminho. Só saber que esse tipo de coisa (ou algo pior) pode acontecer, já é motivo de estresse. E não importa quão rápido é o pace de uma corredora — não há como deixar para trás esse problema.

É QUASE IMPOSSÍVEL ESCAPAR

Claro que nem sempre as corredoras têm que lidar com atenção indesejada, e nem toda mulher que amarra seus tênis de corrida está hipervigilante e assustada. Mas o volume de assédio na vida de uma mulher pode, sim, ser muito alto. E quanto mais elas passam por isso, mais difícil fica relaxar durante uma corrida.

Carminha Tabalipa, 42, de Curitiba (PR), está sempre em alerta depois de sofrer assédio enquanto corria no Parque Barigui. “Era sábado e fui treinar bem cedo. Estava no percurso do bosque e surgiu um maluco do meio do mato que começou a dizer coisas obscenas. Foi o dia em que mais corri. Assustada e indignada, só parei quando cheguei ao posto policial do parque”, conta. No caso de Érika Gouveia, 37, o assédio  veio de onde ela menos esperava. “Um dia estava correndo do trabalho para casa, em São Paulo, quando avistei dois policiais abordando um homem. Passei por eles e tive que escutar um ‘nossa, aí sim’. Mesmo as pessoas que deveriam estar ensinando sobre respeito estavam me desrespeitando”, afirma.

Carminha e Érika vivem em uma capital, e é verdade que nesses lugares as mulheres estão mais propensas a atenções indesejadas simplesmente por uma questão de densidade populacional – quanto mais pessoas existem ao seu redor, maior a chance de uma delas agir como uma idiota. O oposto também é verdade: se você corre em um bairro residencial calmo, pode não encontrar ninguém em sua corrida matinal, o que pode tanto ser sinônimo de um treino tranquilo como de maior vulnerabilidade a um possível agressor.

Em áreas com altos índices de violência fica ainda mais complicado ser mulher e corredora. Na região do Capão Redondo, distrito de São Paulo com um homicídio a cada dois dias (e alta frequência de estupros), Neide dos Santos criou o projeto Vida Corrida, que oferece treinos de corrida gratuitos a mulheres e adolescentes. Na década de 1990, a própria Neide chegou a ser atacada por um homem com uma faca durante um treino, mas conseguiu fugir. “Foram os 800m mais rápidos da minha vida”, conta. Os relatos de medo e constrangimento ainda são frequentes na região, mas o Vida Corrida mudou a realidade de muitas mulheres. “Quando começamos a andar e a correr em grupo, tudo mudou. Descobrimos que podemos nos proteger e inibir a aproximação e falas de baixo calão dos homens. Estamos mais unidas.”

Enquanto corredoras de áreas rurais (e com menor densidade populacional) são menos propensas a sofrerem assédio, “nessas regiões há uma maior possibilidade de as mulheres encontrarem seus agressores novamente, porque elas não podem evitar uma loja ou correr em um lugar diferente”, diz Holly Kearl, fundadora da organização sem fins lucrativos Stop Street Harassment (Pare o Assédio na Rua, em tradução livre). Daiane Nicolette, 25, conhece bem o problema. Antes de se mudar para São Paulo, ela costumava correr perto do portal da cidade de Capivari (SP), que tem pouco mais de 53 mil habitantes, depois do trabalho. “Como eu sempre fazia o mesmo trajeto, encontrava rostos conhecidos toda hora. Certo dia, um cara que sempre mexia comigo estava andando na minha direção. Ele estava na minha frente, ainda distante, e começou a colocar a mão no pênis e me encarar com um olhar horroroso”, conta.

O sentimento ruim fez com que ela decidisse reagir de alguma forma. “Já estava tão cansada daqueles olhares maliciosos que cuspi no chão – quase pegou nos pés dele. Acho que essa atitude foi mais para expressar um sentimento de ‘se liga! você não esperava isso de mim, né?’. Depois, acelerei e continuei correndo, morrendo de medo de que ele viesse atrás.”


Foi isso mesmo?!

Alguns exemplos de assédio sofrido pelas corredoras brasileiras

“Eita coisa delícia, hein?”. É o tipo de coisa que já ouvi durante os treinos. Não é absurdo? Estamos em 2016 e você não tem o direito de correr na rua porque um maluco não pode ver uma mulher.”

Valéria Mello Cattaruzzi, 35 anos, São Bernardo do Campo (SP)

“O assédio que sofri me deixou muito arrasada. Estava treinando domingo perto de casa e um homem passou de carro, me olhou e gritou: “Vai para a cozinha, mulher! O que é que você quer correndo?”

Rebeca Peleteiro, 37 anos, Salvador (BA)

“Estava correndo na Praia da Barra. Domingo chuvoso, ciclovia movimentada. Eis que vem uma moto na minha direção e o motoqueiro mostrava o pênis para todas as corredoras que passavam… Nunca tinha ouvido e nem presenciado algo tão bizarro…”

Cinthia Medrado, 36 anos, Rio de Janeiro (RJ)

Hahahahahahaha!! Ele ficou dando risada depois de dar um tapa na bunda da minha amiga e acelerar. Estava no carro, passou bem devagar do nosso lado e depois acelerou.”

Karla Mendonça, 21 anos, Curitiba (PR)

“Era feriado e a academia estava fechada, então resolvi correr na rua. Foi a pior experiência que tive. Um homem em um carro me perseguiu falando palavras nojentas sobre meu corpo e minhas partes íntimas. Voltei para casa morrendo de medo. Nunca mais corri na rua.”

Letícia Bernardes, 27 anos, São Carlos (SP)

“Em uma prova, três rapazes que corriam com a camisa da equipe de corrida do Corpo de Bombeiros mexiam com todas as meninas que eles ultrapassavam. Todas ficaram muitos incomodadas, mas ninguém fez nada para que eles parassem. Eles falavam coisas como “Sua gorda, olha essa roupa!”

Mariana Stocco, 22 anos, São Paulo (SP)

“Trabalho ao lado do Parque da Cidade em Brasília e lá vemos muitas coisas. Homens estacionam seus carros e, quando alguma mulher se aproxima da pista de corrida, saem do carro com o pênis para fora. A maioria também grita: “Gostooooosa!”. E um já me disse para eu parar de correr e ajudá-lo a se aliviar”.

Michelly Honda, 28 anos, Valparaíso de Goiás (GO)

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O QUE ESSES CARAS ESTÃO PENSANDO?

As forças conduzindo o assédio na corrida são as mesmas por trás de todo o machismo, desde a diferença salarial entre homens e mulheres até o pequeno número de mulheres na política. “Desde sempre, os homens detêm o espaço público e o poder e, por isso, a visão que eles têm é a de que as mulheres são suas propriedades. Sentem que são os seus donos”, explica Paula Korsakas, bacharel em esporte e mestre em pedagogia do movimento. Segundo ela, o assédio foi construído historicamente pelos homens, pioneiros em ocupar o espaço público – local que as mulheres só passaram a frequentar mesmo no século 20.

20% das corredoras já foram seguidas por alguém em um carro, bike ou a pé

A socióloga Débora de Fina Gonzalez afirma que a noção medieval de que “lugar da mulher é na cozinha” vem diminuindo, mas ainda influencia a nossa sociedade a pensar que elas não possuem o direito de ocupar o espaço público, o que gera assédio e discriminação – na rua, no trabalho e também no esporte. “A construção social que liga as mulheres ao âmbito da propriedade privada, longe dos espaços de decisão e sem voz, se altera com o tempo e vai melhorar, mas esse estereótipo ainda permanece.” O assédio acontece, afirma Débora, porque existe a ideia de que o corpo feminino é um objeto e que as mulheres não têm autonomia e poder de decisão sobre ele. “Está tudo interligado. É um absurdo pensar que é assim, mas infelizmente passamos por essas situações no dia a dia e sabemos que ainda estamos longe de uma grande mudança.”

Esse jogo de poder está presente na maioria das atenções sexuais não solicitadas, particularmente quando homens estão com outros homens – embora nem todos estejam conscientes disso. “Em uma cultura sexista, assédio na rua pode se tornar enraizado no comportamento masculino”, explica Shira Tarrant, professora de estudos de gênero na Universidade do Estado da Califórnia, em Long Beach, nos Estados Unidos. Meninos e adolescentes replicam o comportamento dos homens presentes em suas vidas, e se os adultos objetificam ou tratam as mulheres com desrespeito, os menores aprenderão que isso é aceitável e até admirável.

Michael Kimmel, professor de sociologia e estudos de gênero na Universidade de Stony Brook, em Nova York (EUA), conduz pesquisas informais com seus estudantes e diz que enquanto homens ou meninos podem pensar que estão assoviando ou gritando para conseguir atenção e até encontros, assédio pouco tem a ver com romance ou com as mulheres. “O real centro da atenção é a relação dele com outros homens”, ele afirma. Eles querem parecer legais, engraçados ou encontrar aceitação de outros homens. A sociedade ensina que para ser um homem você precisa ser poderoso, agressivo e dominante, e alguns aplicam isso ao tratamento dado às mulheres. Mas essa limitada definição de masculinidade é apenas parte do problema, garante a professora Shira. O ego, a autoestima e as questões pessoais e sexuais de cada homem também entram em jogo.

Homens que nunca chegariam a assediar sexualmente uma mulher podem perpetuar a desigualdade de formas sutis. Alguns exemplos do dia a dia incluem interromper e falar por cima de mulheres, pedir ideias apenas dos colegas homens no trabalho e desconsiderar o mau comportamento de outro homem com a desculpa de que “alguns caras são mesmo babacas”. Quando uma corredora conta uma história de assédio, perguntar o que ela estava usando ou se ela estava sozinha implica que parte da culpa é dela, quando, de fato, a escolha de assediar pertence somente ao homem.

NÃO É SÓ AQUI

O assédio na corrida não é exclusividade brasileira. Em pesquisa online da Runner’s World norte-americana, 43% das mulheres (de um total de 2.533) disseram já ter sido assediadas enquanto corriam. Na metade de 2016, a morte de três corredoras em um período de nove dias, nos estados de Nova York, Michigan e Massachusetts, fez com que corredores reagissem com compreensível choque e preocupação nos Estados Unidos.

Jae Cameron, 30, moradora de Nova York, sofre com olhares e assobios tão frequentemente em seu caminho para o trabalho que sempre para na porta antes de sair para correr. “Eu realmente quero ir lá fora?”, ela se pergunta. “Realmente quero ter que lidar com isso?” A carioca Ana Lucia Valinho, 27 anos, já sentiu na pele o assédio em outro país. “Viajei para Nova York e pensei: ‘Finalmente vou realizar o sonho de correr no Central Park!’. Mas mal saí do hostel e uns caras já vieram na minha direção falando um bando de coisa. Comecei a correr na hora. Todo o caminho até o parque foi assim. E, apesar de lá dentro ter mais mulheres correndo, me senti insegura em alguns trechos mais desertos. Como eu não conhecia bem o percurso, não me alonguei muito e voltei para o hostel assim que completei meu treino básico”, conta.

Já Nana Lima não teve esse problema. Quando morou em Barcelona, na Espanha, em 2013, a diretora de projetos da Think Olga, ONG brasileira dedicada ao empoderamento feminino, começou a correr e conta que o assédio na rua é menor na cidade espanhola. “Mexer com alguém na rua é menos frequente. Lá, o assédio é mais forte em outros ambientes. É comum ver meninas correndo sozinhas na rua à noite sem esse medo daqui. Eu corria sem meu marido e ninguém mexia ou olhava.”

7% já receberam propostas sexuais, e 3,5% tiveram um pênis mostrado para elas

Nos Estados Unidos, o medo de os comentários desagradáveis ou ofensivos se transformarem em ações leva muitas mulheres a carregarem proteção. Kate Nyland, 36, do Brooklyn, leva spray de pimenta em corridas sozinha. “Se me sinto ameaçada, simplesmente levanto ele e coloco o dedo no gatilho, sempre com uma expressão séria no rosto”, ela explica, acrescentando: “Eu sei que isso é agressivo e pode se voltar contra mim se o assediador estiver armado”.

Enquanto a pesquisa da Runner’s norte-americana mostra que 21% das mulheres às vezes saem com spray de pimenta durante a corrida, poucas (1%) já foram ao extremo de portar uma arma. Jo Kula, da Carolina do Norte, é uma delas. “Comecei a cruzar com algumas pessoas em carros que me deixaram desconfortável. Eles passavam, davam a volta e passavam por mim novamente. Sinto-me bem mais segura agora que carrego a arma. Mas ser dona de uma arma é uma grande responsabilidade. Vou ao centro de tiro e pratico para manter minha licença”, explica Jo, que aprendeu a atirar com o pai quando tinha 10 anos. Todos os 50 estados norte-americanos têm leis que permitem aos cidadãos carregarem armas de fogo.

ONDE VAMOS PARAR?

Nesse meio tempo, as mulheres lidam com a possibilidade de serem alvos controlando a única coisa que podem: seu próprio comportamento. “Evito ao máximo correr em ruas por isso e por segurança. Sempre corro em parques ou na USP em horários em que eu sei que também há muitos corredores. Mesmo assim, ainda ouço comentários”, conta Mariana Stocco, 22. Quando o assédio ocorre, é difícil saber como responder. “Eu morava perto do Parque Ibirapuera e ia correndo até lá, mas toda vez tinha algum engraçadinho falando alguma coisa. Eu raramente respondia, mas cheguei a xingar algumas vezes, porque era a gota d’água ouvir essas coisas às 6h”, conta Adriana Vojvodic, 33, de São Paulo.

O que a mulher está vestindo não a protege de ser assediada, mas mesmo assim há uma percepção generalizada de que quanto menos roupa ela usa, mais chances tem de se tornar um alvo. “Mesmo no calor não corro só de top. Não gosto nem de confessar isso, mas evito para chamar menos a atenção. Também vou de legging e não de shorts”, diz Nana Lima, que costuma correr na avenida Sumaré, em São Paulo. Erin Bailey, 25, de Boston, nos EUA, gosta de correr com shorts de compressão e top no verão, mas às vezes coloca roupas mais largas para evitar comentários. “Eu me pergunto: consigo aguentar 6,5 km em uma camiseta? Sim? Ok, então uso a camiseta. Consigo correr 13 km com ela? Não, então não é o melhor para o meu treino”, afirma ela.

E é isso que cada corredora precisa fazer: achar seu próprio ponto crítico entre se sentir segura e confortável e achar que está cedendo aos assediadores. “Embora eu pense que é importante falar para as pessoas quando elas estão sendo predatórias e sexistas, o sentimento de medo vence todas as vezes”, diz Olivia McCoy, 24, do Kentucky (EUA). “Mas ser assediada não tem nada a ver comigo, onde e quando estou correndo ou o que estou vestindo; é sobre uma pessoa pensar que, porque estou em público, ela tem o direito de fazer comentários nojentos para e sobre mim.” Letícia Vulcano, 28, de Belo Horizonte (MG), se recusa a mudar sua rotina. “Eu sei me defender [ela é faixa marrom em Krav Magá], então tenho confiança em correr sozinha, o que não significa que eu não tenha medo em certas ocasiões.”

60% mudaram o trajeto dos treinos após sofrer um assédio

Procurar uma assessoria, clube de corrida ou convidar as amigas para correrem com você pode ser uma alternativa para se sentir mais protegida. A paulistana Giselli Souza é idealizadora do blog Divas que Correm, que oferece dicas sobre o universo da corrida e também promove encontros presenciais entre as seguidoras, em treinos coletivos e provas. “O blog cria novas amizades, tanto virtuais como reais. E, juntas, elas vencem o medo de ir para o parque sozinhas.” Giselli conta que conheceu as amigas que a acompanham nos longões de madrugada pelo Divas. Ela começou a procurar parceiras depois de ficar com muito medo em uma corrida às 5h na USP, em São Paulo.

Então, se a cultura do assédio está enraizada na nossa cultura e é passada de pai para filho, como podemos reverter essa situação? Tanto para Paula quanto para Débora, cabe ao homem aprender a não ter uma postura machista – e não à mulher deixar de correr na rua. “Até agora usamos os nossos instrumentos de mudança de uma forma muito paliativa. Estamos avançando sim, mas indo muito por um lado de colocar curativos. É preciso uma transformação cultural da sociedade  civil, que só será feita por meio da educação”, diz Débora. “Parece que quero me exibir quando coloco um top e um shorts. Eles precisam entender que a mulher está lá fazendo a atividade física dela, e não por eles”, completa Nana.

Não há solução imediata ou fácil, porque assédio sexual é um problema social complexo. Mas conversas abertas e honestas sobre o assunto que incluam homens e mulheres
são um passo na direção certa. “Frequentemente, o assédio na rua é normalizado e minimizado”, afirma a ativista Holy Kearl. “É importante escutar as histórias das pessoas com empatia, porque assédio na rua é um problema sério.”

Para Paula, um ponto positivo no meio de tanta coisa errada são os movimentos feministas que crescem, como no caso das mulheres que se juntam para correr. Mas ela ressalta que para mudar esse cenário a responsabilidade não pode ser só das meninas. “A participação do homem é fundamental para que as mudanças aconteçam.” O professor Michael Kimmel encoraja homens a se manifestarem quando testemunharem tratamento sexista. “Se eu não digo nada, mesmo que eu não aprove o comportamento, outros homens vão entender que eu apoio isso.” Mesmo se as corredoras não possam ser totalmente poupadas do assédio, quebrar o status quo já seria um começo.

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