A periodização da maratona

Anita explica como foram os treinos para seus primeiros 42 km

Foto: shutterstock.

Por Anita Moraes

A periodização da maratona é bastante desafiadora e interessante. No começo, você vai olhando seu programa de treinos semanais, que, como disse anteriormente, duram de aproximadamente 12 a 16 semanas, e vai se desesperando, pois são quilometragens nunca experimentadas. É uma mistura de ansiedade, medo e paixão.

O bacana de ter toda a programação com antecedência na mão é que você consegue administrar melhor seus eventos pessoais, com família e amigos, e, caso haja um evento inadiável, você consegue reprogramar aquele treino longo durante a semana.

Meu programa foi construído em 16 semanas. A 17ª era a da maratona, em que praticamente você roda solto entre 30 a 40 minutos. No começo da periodização, 21 km para mim era como se eu fosse ali no parque rodar 10 km. Os 21 se tornam quilometragem mínima em praticamente todas as semanas, e acostume-se com isso, pois essa base bem construída te auxilia na hora dos treinos maiores.

As semanas em que meu maior treino era 21 km foram deliciosas e sem grandes emoções. Confesso que algumas vezes sentia uma preguiça de acordar cedo no sábado para rodar 21 km na USP (de novo), mas depois que você começa a correr, sua cabeça começa a viajar, sonhar, planejar e aquele treino flui melhor.

Eu acostumei a correr sem música, pois queria naquele momento entrar em contato comigo mesma e me conhecer profundamente. A corrida pode ser um esporte praticado em grupos, mas, mesmo assim, você pode estar ali em silêncio e introspecção.

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Naturalmente durante este período, você melhora seus tempos em provas de 21 km e vai ganhando confiança nas quilometragens percorridas e que estão por vir. Passada essa fase dos 21 km, começam a entrar os treinos longos, de 28, 30, 32 e até 36 km, e é aí que a brincadeira fica muito séria.

Muitos outros atletas amadores que já fizeram muitas maratonas podem achar que não, que correr maratona já não é tudo isso, mas tenho certeza que nunca se esquecerão de toda a dedicação aplicada, de cada quilômetro percorrido, dos desgastes emocionais e físicos, de quantas coisas abrimos mão para simplesmente dormir e as sensações no dia de sua primeira maratona.

Para aquelas pessoas que possuem uma vida agitada, são casados ou namoram, e seus parceiros não estão envolvidos em alguma prática esportiva, esse processo pode ser bastante estressante. Sou corredora e meu marido é nadador de águas abertas. Durante o 1º semestre do ano ocorrem a grande maioria das travessias aquáticas no litoral de São Paulo, e em alguns casos, no Rio de Janeiro. E é preciso que o atleta ou o casal viajem juntos para curtirem aquele final de semana, porém, durante este período, você também tem treinos longos e nem sempre todas as cidades do litoral te proporcionam um trajeto plano, longo, não entediante, com apoio de água e suplementação. Por causa disso, o casal deve programar juntos seus finais de semana e dividirem a planilhas de treinos e provas.

Durante este período, também vão ocorrer happy hours, festas de famílias, casamentos, encontros com amigos e, muitas vezes, você não vai beber, não vai comer algo que esteja fora daquela dieta para a periodização. E tudo isso faz com que nesse período fiquemos mais afastados socialmente e mais centrados na prova.

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Lógico que muitas destas mudanças ocorrem para àqueles que querem fazer uma boa prova, evitando problemas, desconfortos, perda de rendimento, baixa recuperação muscular, etc. Conheço pessoas que treinam menos, fazem tudo praticamente fora do “apostilado” e conseguem ir muito bem na prova e aqueles que acabam muito mal, lesionados e que nunca mais querem voltar a correr uma maratona pelo trauma causado. Mas, há também aqueles que fazem tudo certo, e no final se machucam, terminam mal. Por isso saber ouvir seu corpo nesta hora é muito importante.

Eu sempre ouvi durante a periodização a seguinte frase: “acostume-se com a dor”. E isso foi repetido inúmeras vezes para mim por diversas pessoas, mas acredito que não existe dor em vão. Sentir desconforto contínuo após alguns treinos, como quadril, sola dos pés, dores no ombro ou lombar, joelhos fracos e travados, são sintomas básicos de verificação junto a um médico responsável.

O trabalho preventivo junto a um médico de confiança e que conheça do esporte praticado deve ser realizado, como a própria palavra diz, para prevenção de maiores complicações. Nunca gostei muito de ir ao médico ou tomar remédios, sempre achei que pudesse evitar quaisquer problemas de saúde se mantivesse uma alimentação saudável – nada fora da normalidade –, se conseguisse manter minhas noites de sono bem equilibradas e meu lado espiritual também em equilíbrio.

Vamos pensar nesta postura dentro dos treinos de quilometragens mais longas. Maratonistas de primeira viagem, que possuem um biótipo comum à amostragem de atletas amadores, precisam ter total consciência que fazer a primeira maratona é como dar um tiro no escuro. E, por mais treinado que você esteja, o dia da prova é uma incógnita e pode não ocorrer conforme o planejado por diversos fatores: emocional, climático, orgânico. Por isso, a sua expectativa é dar o seu melhor, com foco e determinação, mas sabendo ouvir seu corpo e seus sentimentos.

A engenheira agrônoma Anita tem 29 anos, começou a correr em 2012 e já fez mais de 25 provas, dos 5 aos 42 km. Tem 22min01 nos 5 km, 45min59 nos 10 km, 1h43 nos 21 km e 3h58 nos 42 km, mas garante: “A corrida para mim não é apenas bater tempos. É uma relação espiritual”.

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