Ultramaratona Trans Atlas

Em 6 etapas e 285 km, a prova mergulha seus corredores na beleza e cultura do norte da África

Foto: Kirsten Kortebein.

Por Kirsten Kortebein

Em seis etapas e 285 km, a Maratona Trans Atlas mergulha seus participantes na beleza e na cultura da cadeia montanhosa do norte da África. Nossa repórter percorreu cada quilômetro dessa prova única e conta aqui como foi essa experiência

ETAPA 1

Quando amanheceu no vilarejo de Zaouiat Ahansal, nas Montanhas Atlas, no Marrocos, partimos para a primeira etapa da Maratona Trans Atlas (apesar de ser uma ultra, esse é o nome da prova). O bate-papo da linha de largada, em um mix de árabe, francês, espanhol e inglês, deu lugar ao som das passadas, das risadas das crianças que assistiam à prova e da torcida dos locais, que acenavam.

O que se seguiu foram 55 km de muito esforço, com três subidas imponentes que levaram os competidores a uma altura de quase 3.000m. A Trans Atlas também escondia outros desafios – como cobras e uma tempestade de granizo –, e já nessa primeira etapa mostrou uma prévia das paisagens que viriam pelo caminho, de estradas empoeiradas a picos nevados, de rochas lisas a campos cobertos por flores. E são essas paisagens sempre mutantes a verdadeira beleza dessa corrida.

Depois de pilhas de cuscuz e galões de chá de menta marroquino, os competidores exaustos se enfiaram agradecidos em seus sacos de dormir, para sonhar com tudo que a Trans Atlas colocaria em seus caminhos nos próximos dias.

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ETAPA 2
Foto: Kirsten Kortebein.

“Berd, berd, berd”, sussurrava um corredor marroquinho por entre os dentes cerrados, na linha de largada da etapa 2. “Frio, frio, frio”, ele dizia. Às 6h30, a uma altura de 1.300m no vilarejo de Agouti, com uma neblina que pairava sobre as montanhas transformando em cenário de sonho aquele ar frio, era difícil acreditar que mais abaixo no percurso, em Marrakech, fazia 38ºC.

“Hoje vocês vão visitar todos os lugares do mundo”, disse Mohamad Ahansal, o diretor da prova, sobre o cenário dos próximos 58 km. “Pirineus, Alpes, Tibete… tudo.” Subimos a quase 3.400m de altitude, abrindo caminho entre a neve, depois descemos vales, cruzamos rios com a água na altura do peito e então passamos por nuvens feitas da areia do deserto. E as mudanças no cenário realmente pareceram um tour por diferentes cadeias montanhosas: grama farta por sobre penhascos vermelhos e terrosos cediam lugar a planícies rochosas e depois aos picos nevados dos Alpes e aos vales nublados do Tibete. Era tanta variedade que não havia sentido tentar descrever as montanhas com base em outros picos famosos: as Atlas têm características próprias.

ETAPA 3
Foto: Kirsten Kortebein.

Na manhã seguinte, após apenas 3 km da largada da terceira etapa, do vilarejo de Ait Ali N’ltto, passamos sobre o leito de um rio seco para chegar a Magdaz. Esse antigo vilarejo, com suas casas de lama vermelha quase debruçadas sobre as encostas, umas sobre as outras, é um patrimônio da Unesco. Na opinião de Mohamad, também é “o vilarejo mais bonito de Atlas”. Ele parou rapidamente para comprar tâmaras que serviriam de combustível para os atletas pelos 43 km restantes daquele dia, sobre picos e cânions, vilarejo após vilarejo, onde as crianças subiam em pedras para ter uma visão melhor, alguns locais torciam e outros se uniam à corrida por algum tempo, saindo de suas cidadezinhas junto com os atletas. Foi um dia em que senti uma conexão não apenas com a região, mas também com as pessoas de lá.

ETAPA 4
Nourddine Aitattaleb chega ao Km 9 da etapa 4. Foto: Kirsten Kortebein.

Pouco mais de 30 km depois do início da quarta etapa, no vilarejo de Tighza, assistimos ao pôr do sol sobre o Vale de Tizi N’Tichka, onde dormiríamos sob as estrelas. O percurso tinha nos trazido por antigas formações rochosas cor de laranja até um posto de controle na colorida vila de Ouzlim, onde os corredores se sentaram no chão para comer pão com azeite de oliva. Mohamad tinha estado ocupado, saindo à meia-noite para comprar pão para o café da manhã, pechinchando o preço das melancias em uma feira e comprando sacos de figos e tâmaras. Os corredores não tinham visto nada disso, mas foi interessante notar como o ato de partilhar comida tinha unido o grupo.

A Maratona Trans Atlas coloca os competidores em contato com a tradição berbere, dos povos do norte da África, e uma grande parte dessa cultura tem a ver com compartilhar espaço, tempo e, especialmente, comida.

Naquela noite, o afeto crescente entre os membros do grupo ficou óbvio. Enquanto alguns corredores ficavam dentro de seus sacos de dormir em barracas com as portas abertas, havia gente dançando, batendo palmas e dando risada perto da fogueira, e quaisquer barreiras de língua ou cultura entre nós pareciam ter derretido no ar da montanha.

ETAPA 5
Foto: Kirsten Kortebein.

Desde o começo, Mohamad tinha deixado clara a importância de respeitar os caprichos do tempo e encarar a prova “beshwiya, beshwiya” – “devagar, devagar”. Parte da explicação pelas condições meteorológicas diversas é que a corrida passa rumo ao norte e ao sul das Atlas, com cada lado tendo seu microclima específico. Ao norte, as coisas costumam ser verdes, úmidas e cheias de fungos… Pense em pele molhada, camisetas agarradas e dedos que parecem uvas -passas. Ao sul, a paisagem é árida, vermelha e laranja… Pense em lábios descascando e em poeira grudada no rosto cheio de protetor solar. Mas não é possível categorizar as Atlas: na quinta etapa, uma noite muito fria cedeu espaço a uma manhã úmida e nublada, e então a uma tarde quente e seca, com um sol tão forte que os competidores terminaram o dia queimados e cheios de bolhas, após correr em 44,2 km pelas montanhas.

ETAPA 6
Foto: Kirsten Kortebein.

“É como o fim de um bom livro, não é?”, disse o corredor Nick Mars, bebendo uma xícara de chá na chegada do vilarejo de Imlil. Ele não podia ter dito melhor – foi de fato um dia triste e alegre ao mesmo tempo. Os corredores vinham transpirando na umidade enquanto corriam por um vilarejo colorido rumo à chegada. Crianças com os olhos arregalados esperavam durante o último quilômetro de prova, e os comerciantes tinham abandonado suas lojas para torcer pelos finalistas. O contraste dessa recepção calorosa com a tarde chuvosa e cinzenta parecia uma manifestação dos sentimentos conflitantes dos participantes: alegres por termos feito parte de algo tão especial, mas tristes porque havia acabado.

A Maratona Trans Atlas tinha sido uma semana monumental de corrida, dança, neblina pesada e campos floridos, novas amizades, pele queimada de sol e sapatos encharcados, tempestades assustadoras e céus claros e cheios de estrelas. Foi sujo e foi cru, mas, acima de tudo, foi bonito.

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