#365para42: Eu consigo se acreditar que posso

Por Cacá Filippini

Coluna Cacá Filippini #365para42
Nessa foto, Cacá é flagrada correndo com fortes dores no joelho direito tão logo volta ao Brasil em nov.19 – Arquivo pessoal

Cá estou eu, Cacá Filippini, novamente contando um pouco mais dessa minha trajetória rumo à minha primeira maratona.

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Na semana passada, ao estrear a coluna #365para42, compartilhei com vocês um pouco da minha trajetória com as corridas. E o ponto de virada que me fez transformar um “não” dado pelos médicos, em um “eu quero e vou conseguir”. 

Mas como nem tudo na vida acontece da forma que nós queremos, voltemos á novembro de 2019, quando estava recém-chegada da Maratona de Berlim, que não corri, mas que acompanhei, como também já contei para vocês. Pois bem, cheia de gás, peguei minhas planilhas e voltei aos treinos. E, em poucos dias, não éramos apenas eu e meus treinos, tínhamos uma companhia constante: as dores no joelho direito. 

Na mesma época, meu filho de 11 anos, estava terminando seu ano escolar e apresentava muitas dificuldades, inclusive com a possibilidade de reprovação. Até aí, ok, quadro vivido por muitas famílias. No nosso caso, tínhamos uma diferença bastante significativa em relação às demais famílias: meu filho é autista e traz um déficit de aprendizado acumulado de alguns anos.

Mas o que isso tem a ver com minha jornada rumo aos 42k195m ao final desse ano?

Tudo! Certa noite, após estudarmos quase o dia inteiro, estávamos a ponto de aceitar que ele não iria conseguir entender o que era preciso para ir bem nos testes. Eu já estava visivelmente esgotada, e ele por sua vez, tinha um olhar triste e já não se sentia capaz. E foi ali, olhando seus olhos que eu me vi. diante de um sonho, com dores que dificultavam a realização do que eu queria. E foi ali também que eu e ele fizemos um trato de não desistirmos. Dei uma pausa nos estudos, liguei a televisão, brinquei com ele e fomos dormir, sem mais abrir livros ou falarmos de provas.

No dia seguinte, antes de deixá-lo na escola, eu disse ao meu filho o mantra que tenho comigo desde seu nascimento e que não só me acompanhou em seus 31 dias de internação na UTI, mas como em todos os dias difíceis que tivemos: “Você consegue se acreditar que é capaz!”

Ao chegar da escola, repassamos alguns pontos da matéria, separando por níveis de dificuldade. Em seguida, pedi ao meu filho que fechasse os olhos e se visse resolvendo todas as questões do teste, com calma e discernimento, aplicando o que ele sabia e deixando por último o mais difícil. Para finalizar, disse a ele que todo o seu empenho e produção do semestre seriam considerados para o fechamento das notas. E que a prova era apenas um critério de avaliação que compunha o conjunto final. Como resultado, a prova que parecia um monstro de 7 cabeças, se tornou um papel com perguntas a serem respondidas. Ele se sentiu tranquilo para responder o que sabia e deixar o que não fazia ideia sem sentir culpa ou frustração por isso. E para nossa alegria, obteve a pontuação mínima para seguir adiante. 

Como trazer isso para a corrida

Sei que pode até parecer clichê, filme da sessão da tarde ou um post motivacional de Instagram, mas estudos científicos já provaram infinitas vezes que a mente exerce um poder enorme em nosso corpo.  

Atletas de elite, por exemplo, utilizam o treino mental e entendem que o mesmo é tão importante quanto os treinos físicos para a evolução da performance. 

Ao termos um grande desafio pela frente, a primeira sensação que vem à mente (e sentimos no corpo) é o medo. E muita gente desiste no meio ou nem cogita tentar. Então, assim como meu pequeno dividiu seu problema em partes, assim também funciona em uma corrida. Independente da distância, divida em partes. Quando fazemos algo devagar, pouco a pouco, fortalecemos a mente para cumprir o objetivo final.

Pode parecer estranho também, mas quando visualizamos o sucesso, fica mais possível ter êxito na tarefa. Um bom exemplo disso foi o feito do treinador de Michael Phelps – recordista de ouro Olímpico – que pedia ao nadador que se imaginasse nadando de forma perfeita, criando na mente todos os detalhes dos movimentos de cada parte do corpo ao se movimentar na água. 

Outro ponto: em situações de estresse, nervosismo, ansiedade ou medo, uma técnica eficiente é a 4:4:4: inspire por 4 segundos, expire por 4 segundos e repita esse ritual por 4 minutos. A técnica é bem parecida com algumas técnicas respiratórias utilizadas no Ioga, que faz  você relaxar, pensar com maior clareza e pode ser feito em qualquer horário, lugar e situação de estresse. 

Experiências pessoais de Cacá Filippini

Coluna Cacá Filippini #365para42
Registro do momento em que Cacá Filippini está correndo e controlando sua mente, na reta final de uma prova de rua – Arquivo Pessoal

E se para você leitor, ainda não está claro o que tudo isso tem a ver com os #365para42, eu explico:

  1. A frase “Eu consigo se acreditar que posso” me levou a buscar soluções para os incômodos que eu tinha em meu joelho e controlá-las;
  2. Cada prova que fiz de lá para cá, dividi km a km, completando no meu ritmo e superando meu resultado anterior, e já me levam rumo aos 21k;
  3. Em todos os momentos que o cansaço bateu com força, reafirmei que sou capaz, e percorri outro km com mais disposição;
  4. Atualmente, valorizo minha trajetória e o que conquistei concorrendo comigo mesma;
  5. Transformei a adversidade do “não” em um projeto de vida.  Evoluí, ganhei mais qualidade nos meus dias, descobri novos protocolos físicos, aprendi mais sobre mim, passei a confiar mais no meu potencial. E, sobretudo, venho controlando os monstros que minha mente cria diante de desafios.
  6. Entendi que somos máquinas que precisam estar em perfeita harmonia e que apenas um trabalho interdisciplinar é capaz de obtê-la.

E é esse último item que norteará nossos próximos encontros, onde falaremos sobre corrida além de planilha.

O que vem por aí de Cacá Filippini…

Exame do perfil genético esportista, exames laboratoriais e de imagem, os chamados testes de corrida, periodização de treinos, preparo físico, disciplinas, tecnologia de performance, soluções e o que há de mais novo, serão alguns dos assuntos que abordaremos ao longo desse ano. 

Coluna Cacá Filippini #365para42

Sintonizar a mente para a atividade que estamos desempenhando e controlá-la é apenas o primeiro, e um dos mais importantes, para o início de sua história em qualquer modalidade. 

Relembrando o que dizia Yogi Berra: “Sports are 90% emotional, the other half is physical” (Esportes são 90% mente e a outra metade físico). Fico por aqui e espero vê-los na próxima semana com mais um capítulo dos #365para42, por Cacá Filippini.  

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