A rainha do deserto

Aos 51 anos, Monica Otero era uma dona de casa que nunca havia pisado na academia. Um ano depois, cruzaria dois desertos

Foto: Renato Pizzuto.

Por Ana Paula Alfano

Era uma manhã de fevereiro de 2007. Monica Otero, uma então dona de casa de 51 anos, mãe de dois filhos, decidiu colocar os pés em uma academia pela primeira vez. Calçou um par de tênis, vestiu uma roupa de ginástica e partiu para a avaliação física marcada pelo instrutor da academia do bairro. “Quais são seus objetivos?”, perguntou o instrutor. “Ah, preciso de resistência muscular porque daqui a cinco meses vou cruzar o Deserto de Mojave, nos Estados Unidos. Vou fazer a Badwater, considerada a prova mais dura do planeta. São 217 km em uma temperatura que chega a 500C”, ela respondeu, diante dos olhos arregalados do instrutor. “Ele achou que eu era louca”, ri Monica, hoje uma das mais respeitadas ultramaratonistas do Brasil.

A história de Monica com as ultramaratonas começou quase que por acaso. Elas foram uma tábua de salvação que surgiu em um momento duro de sua vida, e que ela agarrou com toda força. Quando seu casamento de 28 anos acabou, e o filho caçula, Mario, então com 15 anos, decidiu viver com o pai – o mais velho, Felipe, já tinha 26 e morava sozinho —, ela entrou em um estado de tristeza profunda. “Perdi o rumo. De uma hora para a outra, não tinha mais marido, família, casa, nada… Até os meus cachorros ficaram para trás, deixei com o meu filho.” Foi então que um amigo, Mario Lacerda, que estava formatando a primeira edição daquela que hoje é a principal ultramaratona do país, a Brazil 135+, chamou Monica para ajudar na organização. “Eu me envolvi tanto que resolvi participar da prova. Dos 217 km, percorri 160. Nunca tinha feito uma prova na vida”, lembra.

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Mario diz que já naquela época enxergou em Monica uma determinação e uma paciência inigualáveis. Ela havia decidido que, na segunda edição da Brazil 135+, em janeiro de 2007, cruzaria a linha de chegada. E assim foi. O tempo limite para a prova era de 60 horas. “Quando deu 50 horas, vi que não conseguiria nas 60. Mas parar estava fora de cogitação.” Ela terminou em 67 horas. “Um dia, a Monica perguntou ao Sérgio Cordeiro [ultratriatleta, na época líder do ranking mundial de ultratriatlos] se ele achava que um dia ela conseguiria ser uma ultramaratonista também”, conta Mario. “Sérgio respondeu que ela poderia ser o que quisesse nesta vida. E ele estava certo”, diz Mario.

Monica Otero durante a Sahara Race. Foto: divulgação.

Monica sabe exatamente quando e como surgiu toda essa determinação e fé em sua vida. Em meados de 1995, ela foi diagnosticada com câncer de intestino. “Foi uma fase assustadora, muito dura. Só quem já enfrentou quimioterapia sabe o que é. Tudo o que eu comia botava para fora. Teve dias em que fui 42 vezes ao banheiro. Perdi 13 kg e os cabelos. Passei por três cirurgias — a primeira delas no dia do meu aniversário de 40 anos — e usei bolsa de colostomia”, ela lembra. “Mas, mesmo enfrentando isso tudo, nunca achei que eu fosse morrer. Tinha certeza de que sobreviveria à doença. Precisava sobreviver. Meu filho caçula tinha 3 anos e eu ia vê-lo crescer. O câncer nunca foi para mim uma sentença de morte. Foi um renascimento.”

Quando, cinco anos após o diagnóstico, ela enfim teve do médico a notícia da cura, Monica decidiu celebrar percorrendo parte do Caminho de Santiago, na Espanha. “Sempre gostei muito de andar. Tenho alma de peregrina”, ela ri, lembrando-se de um sonho que teve por volta dos 6 anos. “Eu pegava um saco de estopa, colocava minhas roupas dentro e saía de casa sem destino. Andava e andava, até encontrar um barco. Navegava um tempo e depois voltava a caminhar. Não interessava para onde, só andava com aquele saco nas costas. Essa lembrança sempre me acompanhou, principalmente nos momentos tristes da minha vida. Era como se a caminhada fosse a minha cura, o meu destino.”

Depois que Monica completou os 217 km da segunda edição da BR 135+, Mario ficou animado. Essa é a principal prova no Brasil que classifica para a Badwater. “Ele sabia que até então nenhuma mulher sul-americana tinha participado da Badwater e achou que eu tinha chances. ‘Você está louco? Nunca serei selecionada, nem ultramaratonista de verdade eu sou’, respondi.”

Mas Monica foi aceita. E ela conhecia bem a encrenca que viria pela frente porque no ano anterior, em 2006, tinha estado na Badwater para dar apoio ao amigo ultramaratonista Manoel Mendes. “Ela ficou fascinada e disse que um dia correria ali. Só não imaginava que seria tão rápido”, conta Manoel. “Eu não me surpreendi, porque a Monica tem uma força mental muito grande. Já a vi em situações nas provas que me fariam desistir. Ela tem uma enorme vontade de viver, de nunca se entregar. E aplica isso nas ultras.”

Foto: Renato Pizzuto.

Aceita na Badwater, Monica precisava começar a treinar para valer – ainda que em apenas cinco meses. Além da academia, passou a fazer os treinos de corrida já testando alimentação e hidratação. “Eu bebia água quente nos treinos, porque sabia que era o que teria lá.”

Um mês antes da prova, que seria em julho, ela partiu para o Deserto de Mojave, na Califórnia, para a aclimatação. “Um amigo norte-americano, o Jaron, me ajudava a treinar. Ele amarrava um pneu na minha cintura e me fazia arrastar aquilo pelo deserto. O Jaron quase me matou, mas, como eu não entendia nada de treinos, obedecia”, ela ri. “No dia da prova, o nervoso era tanto que eu só conseguia pensar: ‘Meu Deus, o que estou fazendo aqui em vez de estar em casa?’. Tudo o que eu tinha testado de alimentação deu errado. Só consegui comer azeitonas e beber Coca-Cola. Qualquer outra coisa, eu vomitava”, diz Monica, que contou com uma equipe de apoio de seis pessoas, divididas em dois carros.

Para suportar o calor entre 50 ̊C e 60 ̊C, ela usou um chapéu com gelo dentro e, de tempos em tempos, mergulhava o corpo em um cooler. As pontas dos tênis tiveram que ser cortadas para aliviar a dor das bolhas nos dedos. E xixi ela só fazia de pé. “A dor nas pernas era tanta que, se me abaixasse, não levantaria mais.” Após 54 horas, ela cruzou a linha de chegada. Foi a primeira mulher sul-americana a concluir a prova.

Animada com a medalha e com dinheiro no bolso – ela era dona de um café e havia vendido o negócio –, Monica mergulhou direto em outro desafio. Três meses depois da Badwater, embarcou para a África para participar da Sahara Race, no deserto mais famoso do mundo, na Namíbia. A prova tem 250 km e até então nenhum brasileiro havia completado o percurso. “Fomos eu e um colega, o Rodrigo Cerqueira. Mas ele acabou não concluindo a prova, então fui a primeira brasileira a conseguir. E de quebra levei também o troféu de campeã na minha categoria, de 50 a 59 anos.” Dias antes da largada, Monica comemorou seus 52 anos com direito a bolo no deserto.

A Sahara foi ainda mais dura que a Badwater. Mais uma vez, o calor absurdo não deixava quase nada parar no estômago de Monica. Para piorar a situação, ela tinha muitas restrições alimentares desde que tirara boa parte do intestino por causa do câncer. “Comi apenas salame e provolone. E colocava sachê de chá dentro da garrafinha de água para conseguir beber aquele líquido quente”, ela lembra. Diferentemente da Badwater, em que o participante conta com apoio, na Sahara é cada um por si. Monica levou nas costas uma mochila com tudo o que usaria no percurso – a organização fornecia tendas para os competidores passarem a noite e nove litros de água por dia. “Eu usava tudo para me hidratar, preferi não tomar banho.”

Monica Otero durante a Sahara Race. Foto: divulgação.

No segundo dia de prova, Monica ficou sem água entre dois postos de controle. Sem forças, resolveu tirar um cochilo para se recuperar. Acordou com dois coreanos colocando algo extremamente doce em seus lábios. “Eles acharam melhor chamar a médica da prova. Ela dizia para mim ‘you must stop’ (‘você deve parar’), mas fingi que não entendia inglês. Levantei e segui adiante. A médica mais tarde me disse que só me deixou ir porque tinha certeza de que eu não chegaria muito longe.”

Era difícil para Monica digerir tudo aquilo que estava acontecendo. Como havia conseguido completar duas provas tão duras sem nunca ter sido atleta nem ela podia explicar. Ela sabia apenas que a satisfação por ser dona do seu próprio nariz e correr (literalmente) atrás daqui-
lo que queria era enorme. “Passei quase 30 anos em um casamento opressor. Era dona de casa, seguia horários, cuidava dos outros e fazia o que era esperado de mim. Pela primeira vez a história era diferente”, ela explica. “É exatamente por causa dessa liberdade que nunca quis ter patrocinador. Não fiz muitas ultras, foram no máximo umas 15, porque as inscrições e custos de viagens são muito altos. Mas prefiro assim. Não olho para o relógio, para quem vai à frente ou quem vem atrás. E, se quero parar, paro. Isso não tem preço”, conclui Monica.

Depois da Sahara, ainda com feridas nos pés, Monica encarou outra loucura no início de 2008. Baixou os termômetros para 40 ̊C negativos e participou da Arrowhead 135, uma ultramaratona de 217 km no gelo, em Minnesota, nos Estados Unidos. “Corri puxando um trenó com 14 kg. Usei um pó químico para os pés não congelarem e palmilhas de pele de carneiro. Ainda assim, absolutamente tudo no corpo dói em um frio daqueles. Temos que controlar até o suor, pois ele vira gelo”, diz Monica, que só parou porque o médico da prova a obrigou. Ela estava com uma perna quebrada.

Foi também em 2008, após passar mal em uma prova, que Monica teve o diagnóstico de diabetes tipo 2 e hipertensão. Em vez de lamentar, transformou a atividade física em aliada com a ajuda de um novo preparador físico, Emerson Bisan, também diabético e especialista em treinamento para atletas com a mesma condição. “Mantenho minha glicemia controlada com remédios, alimentação e exercícios. Sem eles eu não estaria saudável”, diz ela, que quando está treinando para alguma prova corre três vezes por semana e, nos longos, chega a fazer 100 km. “Hoje a Monica tem uma rotina diferente por causa de uma lesão no joelho. Além de corrida e caminhadas, ela faz bicicleta ergométrica e muita musculação”, diz Emerson.

Foto: Renato Pizzuto.

Depois de oito anos cuidando do treinamento da Monica, Emerson sabe explicar o sucesso dela como ultramaratonista. “A ultra é um esporte que exige muita maturidade e resistência.” É preciso controlar sono, fome, exaustão e suportar dores de bolhas, assaduras, unhas e músculos. “É necessário um controle emocional absurdo em uma prova que pode te deixar até uma semana em privação de sono, banho, água, comida preparada, fora outras dificuldades. Para quem já superou um câncer no intestino e o diagnóstico de diabetes, vencer esses obstáculos tornou-se quase um prazer.” De fato, quem conhece a Monica sabe: desafio bom é desafio cumprido. E com um sorriso no rosto.

Vencendo a diabetes

Diagnosticada com diabetes tipo 2 em 2008, Monica controla a doença com remédios, alimentação e treinos. Ela mesma mede sua glicemia diariamente e, nos treinos e em provas longas, de tempos em tempos. Emerson Bisan, treinador dela, também tem diabetes e se especializou em treinamento para atletas com a mesma condição. “Os cuidados que um corredor diabético deve ter são os mesmos que todo corredor deveria observar. Desde a avaliação médica e alimentar pré, durante e pós-prova, até indicadores de desgaste e estresse, como frequência cardíaca, glicemia e oxigenação durante as competições”, ele explica. “O cuidado com os pés é fundamental para terminar uma prova sem sofrimento, e o corredor diabético se obriga a fazer isso por causa da doença, o que acaba o diferenciando como atleta.”

Vida de peregrina

Cada vez mais apaixonada por peregrinação, neste ano Monica estreou um caminho para chamar de dela. Um amigo, André Dutra, lançara uma ultramaratona e uma prova de mountain bike chamadas Caminhos de Rosa, relembrando os passos do escritor Guimarães Rosa no livro Grande Sertão: Veredas. E ofereceu para Monica a versão do caminho para peregrinos. “Foi um presente maravilhoso”, ela diz.

Foram meses de trabalho para marcar o percurso e organizar a estrutura de apoio. “Peguei os livros de Guimarães, gente local, historiadores e fiz as modificações.” Em julho, 36 pessoas partiram para cinco dias de caminhadas, percorrendo 165 km. “Na primeira noite, dormimos em uma igreja”, conta Monica. “Foi possível degustar o caminho, olhar em volta, fotografar. Em uma corrida não dá para fazer essas coisas. Por isso não me vejo apenas como ultramaratonista. Minha alma é peregrina”, afirma.

Para vencer a mente

Uma das maiores vilãs nas grandes distâncias é a cabeça do corredor. Monica dá dicas de como seguir adiante sem deixar a mente boicotar a prova

Linhas de chegada pelo caminho

“Durante as provas, marco como meta pontos que eu possa enxergar. É como se a prova fosse terminar ali. Miro e vou. Ao passar aquele ponto, miro outro adiante. E assim vou, nunca pensando na quilometragem total que falta.”

Homenagens

“Sempre dedico a prova a alguma pessoa muito querida. Aí corro por ela, não por mim.”

Investimento

“Lembrar, durante a prova, do quanto investi (tempo, suor e dinheiro) para estar ali já me incentiva.”

Leveza

“Nunca penso que sou obrigada a terminar. Tenho total autonomia, sou dona da minha própria prova. Faz muita diferença, porque dito meu ritmo, quando parar, quando comer. Isso tira um peso enorme das costas.”

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