Corredora com diabetes quer participar das Olimpíadas

Por Scott Douglas, da Runner's World US

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Corredora com diabetes que ser primeira a fazer parte da equipe olímpica
Foto: GRETA RYBUS / Runner's World US

Corredora com diabetes tipo 1, Kate Hall quer ser a primeira com a doença a fazer parte da equipe olímpica americana. E você vai querer estar preparado se tiver que pegar uma medicine ball jogada por ela. 

Eu não estava. Durante um treino, no início de maio, Kate me recrutou para receber seus lançamentos. Fui para o meio do campo do Estádio Fitzpatrick, em Portland, nos Estados Unidos. De dentro da pista, Hall saltou para frente e levantou a bola de 3,5 quilos. A próxima coisa que eu vi foi o objeto quicando e batendo no meu peito com força. 

Eu deveria prever isso. A corredora com diabetes tipo 1, de 22 anos, é recordista do ensino médio dos Estados Unidos no salto em distância. Além de bicampeã da NCAA (National Collegiate Athletic Association), e campeã americana em 2018. Seu recorde pessoal no salto em distância é de 6,83 metros. Kate também é uma velocista experiente, com um RP nos 100 metros de 11,30 segundos, e vice-campeã nacional nos 60 metros.

Após a temporada de 2018, ela decidiu não voltar para a Universidade da Geórgia. Esse teria sido seu último ano competindo por lá. Ela voltou para sua cidade natal para treinar com Chris Pribish, seu treinador do ensino médio. Ele nunca preparou um atleta de classe mundial e passa grande parte do seu dia trabalhando com clientes idosos em reabilitação.

Kate e Chris Pribish esperam que uma abordagem altamente individualizada possa colocar alguém treinando sozinha e sem patrocínio na equipe olímpica deste ano. E eles esperam mostrar que Kate, com sua diabetes tipo 1, pode ser a primeira pessoa com a doença a representar os EUA nas Olimpíadas.

Infância

Quando criança, Kate estava acostumada a ser a menina mais rápida da escola. Isso não significa necessariamente muito em Casco, Maine, que tinha uma população de 3.742 habitantes quando a corredora se tornou adolescente. Mas significou para ela, uma competidora natural. Então, em um dia de 2007, Kate perdeu uma corrida para outra garota durante uma partida de futebol americano. Ela ficou sem entender nada. Seu pai descobriu que a outra menina havia feito um programa de verão. E pediu a ela que tentasse um clube de atletismo.

Corredora com diabetes que ser primeira a fazer parte da equipe olímpica
Foto: GRETA RYBUS / Runner’s World US

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“Eu estava hesitante em fazer algo novo”, diz. “Estava confortável com o futebol e o basquete. Mas meu pai disse: ‘Tente um treino. Se você odiar, não precisa voltar’.” A corredora com diabetes destacou-se nos tiros e no salto em distância, e disse ao pai que queria voltar. Na sétima série, ela já competia por títulos estaduais. E parou de jogar basquete na oitava série, porque o esporte estava interferindo seus resultados na pista. No outono seguinte, teve que abandonar o futebol americano para evitar lesões no joelho. 

O talento de Kate era natural, mas isso não quis dizer que ela não precisou se preparar. “Quando eu era jovem, toda vez que passava por uma porta, pulava e batia no batente”, diz ela. “Eu provavelmente fazia centenas de saltos por dia. E meio que comecei a treinar para desenvolver essa elasticidade.”

Adolescência e descoberta da doença

Em 2012, como caloura do ensino médio, Kate estabeleceu a meta de se classificar para os testes Olímpicos de 2016. Mesmo seu melhor salto (6,68 m) tendo quase um metro a mais do padrão para se classificar. No último salto das competições preparatórias, a New Balance Nationals 2015, Kate voou. Sua marca de 6,83 metros quebrou um recorde nacional de ensino médio que durava 39 anos. 

Corredora com diabetes que ser primeira a fazer parte da equipe olímpica
Foto: GRETA RYBUS / Runner’s World US

Foi uma grande evolução nos seus tempos pessoais e um qualificador automático para os testes de 2016.

Aquele salto também marcou uma grande passagem entre a Kate de 18 anos e a de 10 anos. Foi com a primeira idade que Kate começou a ficar chorosa e perder peso, apesar de comer e beber mais do que o habitual. Um médico local lhe disse que ela estava tendo surtos de crescimento. Como os sintomas de Kate continuaram a piorar, seus pais recorreram ao Google, o que levou a um teste caseiro do nível de açúcar na urina. Uma viagem ao hospital, mais tarde naquele dia, resultou em um diagnóstico de diabetes tipo 1 e doença celíaca. “Assim que fui diagnosticada e recebi insulina, ganhei muito peso e voltei ao normal”, diz ela.

Ser diabética acrescenta desafios com os quais os concorrentes de Kate nunca precisam se preocupar. Se seu açúcar no sangue ficar muito alto, o nível do pH nos músculos pode mudar o suficiente para causar cãibras. “Quando ela estava no ensino médio, às vezes dava dois saltos com o nível de açúcar no sangue acima de 350 [mg/dl]. Quando isso acontecia, ela tinha que encerrar o treino”, diz Chris Pribish. Toda vez que o açúcar no sangue de Kate estivesse muito alto ou muito baixo, ela tinha que cancelar os seus planos.

Desafios de ser uma corredora com diabetes tipo 1

Ela também sofreu com falhas nos equipamentos. A bomba de insulina, que presa ao quadril, tinha um tubo conectado a uma agulha. “Sempre que eu tentava competir, tudo caía”, lembra. Agora, ela usa uma bomba pequena que ela prende ao tríceps e troca a cada três dias. E um monitor de glicose bem discreto, preso ao cós, envia leituras das taxas de Kate para seu celular. 

Entre os avanços tecnológicos e o maior conhecimento sobre sua nutrição, Kate quase nunca suspende os treinos por conta da saúde. A pista se mantém desafiadora, porque a excitação da competição aumenta seus níveis de açúcar no sangue. A corredora com diabetes tenta ficar calma e segurar a empolgação.

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Atualmente, ela usa suas redes sociais para falar com outros diabéticos. “A mensagem que estou tentando dar é que a diabetes tipo 1 não precisa impedi-lo de fazer o que você quer”, diz ela. “Não tem que controlar você. Você pode controlá-la.”

De fato, Kate atribui parte de seu sucesso ao diabetes. “Meu trabalho começou ao ser diagnosticada aos 10 anos”, diz ela. “Tive que gerenciar e controlar a doença desde muito jovem, e queria fazer tudo sozinha”. O diagnóstico inicial contribuiu para o senso de independência da corredora com diabetes e seu ceticismo em relação às figuras de autoridade. 

História com o treinador

Kate teve uma distensão do músculo posterior da coxa correndo durante a sétima série. Ela foi fazer fisioterapia em uma clínica em Windham, a mais próxima de sua casa. Chris Pribish, agora proprietário da Momentum Performance and Wellness, em South Portland, esteve presente durante o último dia de terapia de Hall. “Eu disse a seu pai: ‘ela não está pronta para voltar a correr'”, lembra. “Eu disse a ele que Kate teria problemas novamente se ela não fizesse algumas coisas de forma diferente.”

Os Halls perguntaram a Chris Pribish se ele fazia treinamento pessoal. Eles têm trabalhado juntos durante nove anos. Mas a evolução de Kate parou durante o colegial. Como caloura na Iowa State University, seu melhor salto ao ar livre foi quase um pouco menos do que seu RP. “Eu tinha mais liberdade no ensino médio para correr atrás dos meus objetivos”, diz Hall.

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Foto: GRETA RYBUS / Runner’s World US

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Chris Pribish diz que as promessas feitas pela Universidade sobre ele permanecer envolvido no treinamento não foram honradas. “Foi completamente diferente”, diz. O levantamento de peso quase diário fez Kate ganhar 4,5 quilos na parte superior do corpo. “Eu fazia alguns treinos paralelos que eles não me passavam, mas eu sabia que precisava. Mas lógico que isso me sobrecarregou, porque eu já treinava muito. Fiquei mais pesada e lenta. E percebi que a Universidade não iria me ajudar”. O único destaque do ano foi cumprir o objetivo de competir nos Jogos Olímpicos Preparatórios de 2016, onde ficou em décimo lugar.

Faculdade e treinos

A transferência para a University of Georgia durante o segundo ano de Kate mostrou uma melhora inicial. Ela fez amizade com seus colegas de equipe e tinha pessoas com quem podia se exercitar. Ela estabeleceu seu RP nos 100 metros em maio de 2017. No mês seguinte, ganhou o NCAA em seu melhor salto desde o colegial.

Mas algumas das frustrações do ano anterior retornaram. “Comecei a perceber que a NCAA é um grande negócio”, diz Kate. “Não é necessariamente sobre o que é melhor para os atletas. É sobre marcar pontos”.

Ambas as universidades, ela diz, ignoraram o fato dela ter diabetes. E de precisar de mais recuperação do que a maioria dos atletas comuns depois dos treinos intensos. “Se o meu açúcar no sangue está muito alto, meu corpo todo trabalha para baixá-lo”, diz Kate. Esse processo pode impedir aspectos da recuperação. Como diminuir a tensão muscular e aumentar a atividade glandular, o que, por sua vez, pode prejudicar seu sono. “A diabetes afeta praticamente tudo”, diz ela.

Apesar de ter vencido no salto à distância NCAA indoor em 2018, Hall não chegou à final ao ar livre. Durante o terceiro ano da faculdade, ela se viu piorando à medida que a programação avançava para a temporada de campeonatos. Ela se sentia exausta pelas recuperações inadequadas. “Não importa o quanto tentasse, eu não pularia como antes”, lembra. “Eu visualizava os resultados, mas quando estava na pista, fisicamente não conseguia”. 

Ela estava à beira de uma lesão grave. Os exageros nos treinos de força resultaram em um desequilíbrio no quadril e glúteo direitos, que ficam no lado em que ela aterrissa. Por isso, são visivelmente maiores que o lado esquerdo do seu corpo. 

Rotina atual e recuperação de uma corredora com diabetes

A corredora com diabetes decidiu que permanecer no sistema universitário prejudicaria sua chance de fazer parte da equipe olímpica de 2020. “Eu não queria ser jogada no mundo profissional em um ano olímpico”, conta. “Queria um ano para aprender como é. Além de ter experiência com o cronograma profissional, viajar para o exterior, coisas assim. Isso significava deixar a Geórgia e a NCAA e voltar para o Maine, para trabalhar com Pribish.” Ela terminará sua graduação em ciência do exercício ano que vem, através de um curso on-line da Eastern Oregon University.

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Foto: GRETA RYBUS / Runner’s World US

Por que os 5 km podem te trazer tantos benefícios como uma maratona

Até hoje, a corrida mais longa que fez foi de 1,6 km durante um teste de aptidão da escola. Ela era mais pesada do que flexível quando a assisti correr cerca de 300 metros para aquecer. “O corpo dela não gosta de correr longas distâncias, não acha confortável”, diz Chris Pribish. “Eu não acho que ela tenha fibras musculares de contração lenta em seu corpo.”

Kate também precisa dobrar o seu tempo de recuperação. Considerando que corredores de elite conseguem cobrir de 16 a 32 km em seus dias de recuperação, Kate precisa de muito mais. No dia seguinte a um treino intenso, ela vai à academia de Chris Pribish por uma hora. Faz alguns exercícios básicos de mobilidade e, em seguida, fica em uma mesa de massagem recebendo liberação miofascial. Se Kate ainda se sentir cansada ou dolorida no dia seguinte, ela terá outro dia de recuperação. O que Kate escreveu sobre diabetes também descreve sua abordagem ao treinamento. “Fazer as coisas um dia de cada vez e aprender com minhas dificuldades e fracassos.”

Fortalecimento de uma corredora com diabetes

Com 1,62 m de altura, 59 quilos, ombros largos e pernas musculosas, Kate fica imponente em roupas esportivas. Mas agora ela não é tão forte quanto na faculdade. “Pessoas rápidas não são necessariamente fortes. Queremos treinar seu corpo para funcionar melhor, não necessariamente para o músculo ser capaz de levantar algo muito pesado”, diz Chris.

Em um treino de uma hora no estádio, eu observei que Kate não fez exercícios de supino, flexões, levantamentos, agachamentos ou outros movimentos com pesos convencionais. Ela começou com uma série de exercícios proprioceptivos e neuromusculares. Como balançar os halteres de 4,5 kg para frente e para trás com um joelho dobrado a 90 graus. Ou pular corda em um pé e passar para o outro quando Pribish gritava “Switch!”

Próximos objetivos

Vale lembrar que o RP de salto em distância de Kate ainda é um recorde nacional de ensino médio. Ela e Chris Pribish atribuem o tempo sem evolução ao treinamento da faculdade. Ele não era adequado para o corpo, inclusive do ângulo do diabetes. “Eu não tenho nenhuma dúvida de que serei melhor do que isso em breve”, diz Kate. 

Os sinais apontam na direção certa. Desde meados de junho, ela ganhou no salto em distância nos Jogos da Adidas Boost Boston, onde pistas foram montadas perto da linha de chegada da Maratona de Boston. E em Marselha, na França e Lignano, na Itália. Entre os participantes que ela derrotou está Darya Klishina, segunda no campeonato mundial de 2017. 

Corredora com diabetes que ser primeira a fazer parte da equipe olímpica
Foto: GRETA RYBUS / Runner’s World US

O melhor salto de sua temporada, de 6,78 metros, que ela atingiu duas vezes, está a milímetros de seu RP. Ele a torna a quarta melhor classificada para as competições nacionais ao ar livre, evento onde a equipe olímpica se encontrará. As chances de Kate ir para os campeonatos mundiais são ainda maiores porque Brittney Reese, atual campeã mundial, recebe entrada automática nas Olimpíadas. Então os Estados Unidos podem mandar quatro mulheres para competir na categoria.

Um dos objetivos de Kate este ano é conseguir um patrocinador. Ainda assim, ela entende a realidade de sua situação. “Muitas empresas de calçados não gostam de atletas com técnicos locais”, diz ela. “Eles acham que eles não são qualificados ou experientes. Eu sei por que estou com o meu treinador”, continua ela. “E isso não é algo que eu mudaria para uma empresa. Eu sei que este é o melhor lugar para mim.”

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