Corrida-terapia

A ciência e as histórias de vida comprovam: correr faz bem para a mente

Por Marcia Kedouk/Fotos de Renato Pizzuto e Bruno Marçal

Tatiane teve depressão pós-parto e se sentiu a mais culpada das mães. Renato trabalhava mais de 12 horas por dia, dormia muito pouco e viu o estresse invadir também sua vida pessoal. Nina descontou a ansiedade na comida e engordou 40 kg. Nassimie enfrentou momentos difíceis na família e, com os nervos à flor da pele, viu suas crises de enxaqueca chegarem com força diariamente. O que os quatro têm em comum? Eles fizeram da corrida uma aliada para curar a mente, acalmar as emoções e domar problemas tão comuns na população.

Leia mais:
De olho na vitamina D
A mente está derrubando seu corpo?

O Brasil é o segundo país mais estressado do mundo, segundo a Associação Internacional do Controle do Estresse (Isma), e o terceiro em prevalência de depressão, de acordo com uma pesquisa da Universidade Estadual de Nova York (EUA) com dados de 18 países. Seis em cada dez brasileiros se sentem ansiosos, mostra um estudo global do instituto norte-americano de pesquisas J. Walter Thompson Intelligence.

A boa notícia é que calçar o tênis e ganhar o asfalto pode mesmo funcionar como terapia. “Além de melhorar o condicionamento do corpo, a corrida induz à descarga de substâncias cerebrais envolvidas no bem-estar, aumenta a autoestima e ajuda a ampliar o círculo de amizades”, diz Sâmia Hallage, psicóloga esportiva da clínica Move, em São Paulo, e preparadora de atletas do Comitê Olímpico Brasileiro. “Todos esses efeitos são benéficos para a saúde mental.” Entenda melhor como funciona a corrida-terapia.

Indicada para depressão

A depressão deve se tornar a doença incapacitante mais comum do mundo até 2030, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). E as mulheres tendem a ser mais suscetíveis ao transtorno. Não há consenso científico sobre os motivos, mas as alterações hormonais durante o mês, com o aumento e a diminuição de estrogênio e progesterona ao longo do ciclo menstrual, e a pressão sociocultural para que elas desempenhem bem os papéis de mãe, esposa e profissional podem ter a ver com isso. Um tipo de depressão, a pós-parto, merece ainda mais atenção.

Horas depois do nascimento do bebê, os níveis de alguns hormônios caem drasticamente, o que pode causar uma sensação de tristeza e irritabilidade durante algumas semanas. Isso é natural. O problema é quando o quadro piora e se estende. A mãe passa a lidar com a incapacidade de cuidar de si e do filho, começa a se achar culpada e a crise se agrava. Segundo uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com 23.896 mulheres, a estimativa é de que uma a cada quatro mães no Brasil sofra de depressão pós-parto entre 6 e 18 meses depois do nascimento do bebê. O número chegou a 26,3% do total das entrevistadas. Esse índice é bem maior que a média mundial em países de baixa renda, que é de 19,8%.

tatiane santin corrida terapia
Tatiane Santin

Quando a doença se instala, é necessário buscar ajuda médica. Foi o que aconteceu com a engenheira ambiental Tatiane Bérgamo Santin, 30 anos, de Campo Grande (MS). Depois do nascimento do primeiro filho, há seis anos, ela sentiu a angústia da depressão. “Demorei a aceitar que podia estar acontecendo comigo”, diz. “Passei dias sem conseguir comer nem dormir, tive alucinações e cheguei a pesar 52 kg, sendo que tinha 57 kg antes da gravidez.” Tatiane tem 1,67 metro de altura. “Depois de um mês, já bem abalada, comecei a terapia e a medicação. Nos primeiros 15 dias, aconteceu um efeito rebote do remédio: os sintomas foram agravados. O médico então pediu para que eu buscasse atividades que me dessem prazer. Saí do consultório disposta a vencer aquilo.

Comecei a correr e voltei a fazer musculação.” Logo nos primeiros treinos, a corrida ajudou em vários sintomas da depressão. “Eu me senti mais disposta, capaz de superar desafios e sem altos e baixos no apetite.”

Depois do nascimento do segundo filho, há três anos, Tatiane enfrentou a depressão pós-parto novamente, mas de forma mais branda. Provavelmente, por causa do efeito conseguido com a atividade física regular. Ela promoveu a corrida ao posto de protagonista no auxílio ao tratamento e, hoje, treina quatro vezes por semana, faz cinco dias de musculação e dois de exercícios funcionais. Completou dezenas de provas de 5 km e 10 km, dez meias maratonas e a Maratona de Berlim, o grande sonho conquistado. “O exercício tem um mecanismo de ação parecido com o do remédio: ele aumenta a liberação e a síntese de neurotransmissores, que são substâncias envolvidas, entre outras funções, na regulação do humor, do sono, da fome e do bem-estar”, afirma Ricardo Arida, professor de neurofisiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Outros ganhos importantes com a corrida para quem tem depressão são o aumento da autoestima e a ampliação do círculo social. A primeira vantagem tem a ver com a melhora na definição corporal. A segunda, com uma mudança de padrão de comportamento. É que o distúrbio leva o paciente a querer se fechar em si mesmo, a passar os dias no quarto sem vontade de sair dali. O exercício o estimula a sair dessa. “Em vez de passar o fim de semana vendo TV, o atleta vai participar de provas, encontrar pessoas, viajar para competições”, diz Sâmia Hallage. “Essa variação de estímulos é muito importante na melhora de quadros psíquicos, porque traz novas alternativas de vida. Por isso, a corrida é indicada como terapia não só para casos de depressão, mas também de ansiedade e estresse crônico.”

Indicada para dores físicas e emocionais

Nassimie Fraxe
Nassimie Fraxe

Correr de vez em quando para desestressar sempre foi um hobby, não uma prioridade, para a nutricionista Nassimie Fraxe, 32 anos, de Manaus (AM). Mas foi apenas em 2015, quando uma pessoa da família que sofre de depressão entrou em uma crise profunda, é que ela percebeu: se não encontrasse uma válvula de escape, não aguentaria o peso de ver alguém tão amado sofrer com a doença. “Fiquei em um nível de tensão muito grande, e minhas crises de enxaqueca passaram a acontecer 20 dias por mês”, conta ela, que tem dois filhos pequenos, de 5 e 3 anos. “Precisava de um coquetel de remédios para dar conta da dor de cabeça.”

Um dia, Nassimie decidiu procurar um neurologista para tratar a enxaqueca com um medicamento mais adequado, de uso contínuo, que toma até hoje. E buscou uma assessoria esportiva para deixar de focar as energias nas dores físicas e emocionais e direcionar esforços para a corrida. Hoje ela treina três vezes por semana e faz exercícios de fortalecimento muscular em outros dois dias.

Depois de participar de duas provas de 10 km e uma meia maratona, a manauense comemora os ganhos na saúde psíquica. “A corrida é a minha terapia, meu momento de reflexão. Boto um fone para ouvir música e lá vou eu pelo percurso”, diz. “Meu humor melhorou muito e meu estresse diminuiu consideravelmente. Às vezes, até me esqueço de tomar o remédio para a enxaqueca e, mesmo assim, continuo bem. Acho que boa parte das minhas crises eram desencadeadas pela tensão, pelas preocupações.”

O estresse libera a produção do hormônio cortisol, que deixa o corpo em estado de alerta e ajuda a mobilizar energias para resolver um problema. Quando esse mecanismo funciona constantemente e por longos períodos, leva a um excesso da substância na circulação. Isso causa queda no sistema imunológico, aumento do apetite, nervosismo exacerbado, dificuldade para dormir e aumento da pressão arterial, da taxa de gordura no sangue e da frequência cardíaca. A corrida funciona como uma válvula de escape dessa pressão toda. “O exercício aeróbio regula as alterações causadas pelo estresse crônico, porque equilibra a disponibilidade dos hormônios envolvidos”, diz Ricardo.

Indicada para estresse

Renato Malizia
Renato Malizia

Quem conhece muito bem os efeitos nocivos da vida acelerada é o gerente de marketing Renato Malizia Júnior, 41 anos, de São Paulo. A rotina dele era passar mais de 12 horas por dia no escritório e pular refeições. “Sem contar que dormir era um luxo. Muitas vezes, precisava acordar durante a madrugada para resolver problemas do trabalho”, diz. “O estresse se alastrava até para as relações pessoais. Eu descontava a tensão na comida, no trânsito e, principalmente, em mim mesmo.” Em 11 anos, Renato engordou mais de 25 kg.

Ele resolveu colocar um ponto final nesse turbilhão em 2007, quando começou a correr. “O processo de melhoria foi como um furacão, porque tudo se alterou muito rapidamente. Passei a praticar o esporte diariamente e a fazer melhores escolhas na alimentação. Virou um hábito.” Em apenas seis meses, ele eliminou os 25 kg extras. Hoje percorre de 6 a 8 km por dia e já participou de mais de 40 provas de 5 km e 10 km, suas distâncias preferidas. “Continuo trabalhando bastante, às vezes até mais, mas agora estou tranquilo e feliz. O nervosismo passa longe e meu sono é sagrado.”

Existem várias teorias que explicam os efeitos da corrida na diminuição do estresse e da percepção da dor. Uma delas é que a atividade faz crescer a liberação de endorfina, nossa “morfina interior”. A substância é um analgésico natural produzido pelo organismo que leva ao relaxamento. Durante o exercício, as concentrações dela aumentam no sangue e, como indica um estudo da Universidade de Bonn, na Alemanha, em regiões cerebrais ligadas ao controle das emoções.

Indicada para ansiedade

A relação entre a corrida e a saúde mental era o assunto entre a gerente de contas Marina Camargo, 28 anos, de Pouso Alegre (MG), e uma amiga. Era 2013 e ela contava como a falta de amigos e de estímulos para uma vida saudável estava afetando seu quadro emocional. Ela tinha ido trabalhar em Curitiba (PR) e não conhecia muita gente.

Nina Camargo
Nina Camargo

Nina sempre foi muito ansiosa, desde a infância, quando passava noites em claro antes do primeiro dia de aula. “Descontava tudo na comida”, conta. Sem apoio por perto na nova cidade, ela chegou a pesar 98 kg, com 1,59 metro de altura. Desanimada, pediu conselhos para a amiga, atleta amadora, e ouviu que deveria experimentar um grupo de corrida. Não só para melhorar a saúde, mas também para se enturmar. Sugestão aceita, era preciso, apenas, vencer as dificuldades iniciais. “No começo, eu simplesmente não conseguia treinar direito. Corria cinco segundos e andava um minuto. Foi difícil, porque, na minha cabeça, achava que calçaria o tênis e correria uma maratona”, diz, rindo da própria ansiedade. “Mas vi que não é assim. Corrida, como a maior parte das coisas da vida, é um processo. Tem de haver treino, hábito, disciplina e progresso.”

A mineira viu nas pistas uma chance de aprender a traçar pequenos objetivos e conquistá-los um a um, sem aquela ânsia de antecipar o futuro. “Fiquei animada a cada treino por conseguir correr dez segundos a mais do que na semana anterior. Ficava muito claro o bem que eu estava me fazendo – e isso me ajudava a criar o hábito do exercício.”

Quem sofre com estresse crônico, ansiedade e depressão tem mais chances de desistir da atividade física por falta de motivação ou excesso de vontade de alcançar resultados rápidos, afirma o treinador Aulus Sellmer, proprietário da assessoria esportiva 4any1, em São Paulo. “Enturmar-se ajuda a persistir, porque na corrida um ajuda o outro a vencer os próprios limites.” O treinador costuma recomendar aos alunos, não só para os ansiosos, que façam exercícios de respiração da ioga para aprenderem a forma certa de inspirar e expirar. “Respirar corretamente é fundamental para domar as expectativas”, explica ele.

Nina agora vive em São Paulo, onde mantém os treinos de três a quatro vezes por semana, além dos exercícios de musculação para fortalecimento. Eliminou 40 kg, uma conquista e tanto. Mas o que ela comemora mesmo é a mudança na forma como encara os dias. “Corrida é um dos melhores exercícios de disciplina e foco que conheço”, afirma. “Eu lembro que, quando fiz a Meia Maratona de Buenos Aires, uma amiga me perguntou no fim: ‘Você viu que percurso lindo? A Casa Rosada? O Obelisco?’. Não, eu não tinha reparado em nada. Estava tão preocupada com o tempo e a chegada que me esqueci de curtir o caminho. Dali em diante, ficou claro para mim que corrida, além de meta, é saber aproveitar a jornada, as experiências e os amigos.”

Nina, Tatiane, Nassimie e Renato aprenderam que, quando a mente dá sinais de que algo não vai bem, calçar o tênis é tão terapêutico como saber que os obstáculos da vida são vencidos com um passo de cada vez.

Três super-poderes da corrida

Além dos benefícios físicos, como melhora da saúde e da definição corporal, a corrida pode ser um remédio e tanto para a mente

EFEITO QUÍMICO

O exercício estimula a produção de neurotransmissores, como a endorfina – que produz relaxamento e diminui o estresse e a percepção da dor –, a dopamina, ligada ao prazer, e a serotonina, que ajuda a regular o sono e o apetite e provoca sensação de bem-estar. A serotonina também está relacionada à melhora dos sintomas de depressão e ansiedade.

EFEITO SOCIAL

Mesmo quem treina sozinho faz novos contatos nas provas. Com o tempo e a vontade de participar de competições em outras cidades, os laços se estreitam ainda mais, e o círculo social aumenta.

EFEITO EMOCIONAL

A autoestima e a autoconfiança são fortalecidas com a melhora física, os hormônios em equilíbrio e mais amigos por perto.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here