“O atletismo brasileiro não vai para frente”, diz a recordista e treinadora Eliana Reinert

Por João Ortega da Runner´s World Brasil

Eliana Reinert
Foto: Divulgação

Relembrar o passado é essencial para entender a trajetória do atletismo e da corrida de rua no Brasil atualmente. Nos olhos da ex-atleta profissional e treinadora de corrida Eliana Reinert, as memórias da trajetória na corrida se transformam em lágrimas tímidas. “Gratificante”, ela diz sobre o ato de reviver a história que começou em Blumenau, Santa Catarina, seis décadas atrás.

Na infância, Eliana era uma menina frágil e sofria com recorrentes problemas de saúde, até operar as amígdalas aos 9 anos de idade. Foi só na pré-adolescência, quando se mudou com a família para um sítio perto da cidade de Joinville, que ela teve os primeiros contatos com as atividades físicas. “Houve uma transformação”, conta. “Lá eu convivia com a natureza, fazia diversas atividades. Fui ficando mais forte, mais atlética.”

Aos 14 anos, ela participou da sua primeira corrida. Nunca tinha treinado nem contava com tênis para a prática. Mas se apaixonou por cada parte da prova: das dores nas pernas à inesquecível sensação de cruzar a linha de chegada. A partir daquele momento, o esporte não saiu mais dos seus pensamentos. “No primeiro contato com a corrida, vi o quanto era difícil, e eu queria saber até onde conseguiria chegar. A corrida foi um desafio. Era um diferencial dentro da minha perspectiva de adolescente.” 

Por um lugar ao sol

Adaptar-se a um estilo de vida que não contemplasse a corrida se tornou impossível para Eliana. Ela chegou a buscar trabalho no escritório de uma empresa do setor têxtil para ajudar com as contas da família, mas não conseguiu se manter focada por muito tempo. “Fui mandada embora porque eu sempre dava um jeito de sair mais cedo para correr”, confessa. “Nessa época, fiz um trato com meus pais: eu faria todo tipo de trabalho no sítio para ter tempo de correr.”

O início da vida adulta não poderia ter sido mais intenso. Além do trabalho que fazia no sítio da família, Eliana cursava faculdade de educação física e corria com um treinador de Joinville. “Foi ele que sedimentou em mim a questão da disciplina para o treinamento, e isso ficou para toda a minha vida”, conta. “Tinha dias que eu saía da aula de noite e ele me esperava até a madrugada para treinar.”

Quando terminou a faculdade e sua performance começou a decolar, foi natural que seguisse rumo para São Paulo. A maior cidade do país era o lar da já tradicional Corrida de São Silvestre, que abriu espaço para as mulheres em 1975. No ano seguinte, Eliana participou da prova, que era um sonho pessoal, e cruzou a linha de chegada no 8º lugar.

Questão de honra

Apesar do grande desempenho, o apoio ao atleta profissional no país era ínfimo, especialmente em relação às mulheres. “Era incipiente. Apoio estrutural, pensando em Brasil, em federação, não tinha. As mulheres estavam começando a se inserir nas corridas mais longas. Através do meu desempenho, eu buscava apoio de marcas”, relata Eliana. Entre um ou outro patrocínio pontual, a carreira na corrida já não lhe parecia tão segura.

O ano de 1978 foi um divisor de águas para a atleta. Para Eliana, era tudo ou nada: caso tivesse uma performance de destaque na São Silvestre daquele ano, o sonho de ser uma atleta profissional continuaria aceso. Do contrário, seria hora de levar uma vida que não dependesse da vontade de alguns patrocinadores.

Alguns podem afirmar que foi o destino, outros, mais céticos, dirão que o resultado veio de treinamento e disciplina. O fato é que Eliana ficou em 3º lugar, subiu no pódio e viu o sonho de ser uma atleta profissional se tornar palpável.

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Eliana na primeira Earth Run, no Japão, em 1986

Uma atleta completa

O resultado na Corrida de São Silvestre valeu um convite para treinar no Clube Pinheiros, um dos maiores e com mais tradição no atletismo da cidade de São Paulo. Ali, contava com estrutura e estabilidade que não conhecia até então.

Todos os dias, Eliana dava voltas e mais voltas na pista de atletismo do clube. Naquele período da sua história, recebeu ajuda de grandes figuras do esporte nacional. “Eu usava um tênis velho e ficava rodando na pista. E o João do Pulo (medalhista olímpico e lenda do atletismo) ficava me vendo correr da arquibancada. Patrocinado pela Adidas, ele foi para Berlim e voltou com um tênis novinho amarelo da marca para mim. Aquele tênis me fez correr mais, me deu muito gás”, conta, emocionada, como se recebesse o presente de novo. “Eram estímulos como esse que me davam mais vontade de vencer, que me jogavam lá na frente.”

Versatilidade

Bons resultados apareceram tanto em provas de rua como competindo em pista. Em 1979, Eliana foi 3º lugar na São Silvestre. Três anos depois, foi convidada para fazer parte da primeira equipe da Corpore, entidade fundada para alavancar a corrida no Estado de São Paulo. Com o treinador Wanderlei de Oliveira, a corredora passou a ter ainda mais destaque no cenário brasileiro e também internacional.

Não importava a distância ou o tipo de solo. Ao longo dos anos 1980, ela foi pentacampeã da já extinta Minimaratona da Gazeta Esportiva (21 km), em São Paulo. Quebrou os recordes brasileiros nos 3.000m, 5.000m e 10.000m em pista. E venceu a Maratona do Rio de Janeiro. Para Wanderlei, foi uma das atletas mais importantes de seu tempo: “Foi a primeira mulher de alto nível que treinei. Era fora de série. Uma atleta completa, corria bem na rua e na pista, o que era raro na época”.

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Largada em prova Track & Field de 2015

Correndo por altos e baixos

Eliana confessa que o grande momento da sua carreira, entretanto, não teve a ver com medalhas, recordes e pódios. Em 1986, a atleta foi convidada pela ONU para representar a América do Sul na Volta ao Mundo pela Paz. “Viajei pelo mundo todo. Conheci novas culturas. Novos povos”, relembra, nostálgica, sobre a expedição que buscava passar a mensagem da paz através do esporte. “Eu sempre tive o ideal de que é possível transformar as pessoas através da corrida. Faz a diferença.”

“Tive a honra de ser seu técnico até 1987”, conta Wanderlei. Naquele ano, o treinador se mudou para Portugal, enquanto Eliana sofreu o maior baque da sua carreira. Ela recebia patrocínio do Pão de Açúcar, tinha acabado de vencer a Maratona do Rio de Janeiro (onde fez seu recorde pessoal: 2h49min) e estava ranqueada para correr os 42 km nos Jogos Pan-Americanos de Atlanta. Entretanto os cartolas da federação decidiram não levar mulheres para a prova. “A partir dali, comecei a repensar minha carreira, porque percebi o quanto eu estava a mercê de cartolas e índices inconsistentes”, revela a ex-atleta. “Comecei a cultivar a ideia de ser treinadora.”

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Carreira dupla

De volta ao Clube Pinheiros no fim de 1980, Eliana vivia uma carreira dupla: enquanto ainda tinha grandes resultados como atleta – nesse momento, treinando sozinha –, ela ocupava o cargo de treinadora. Desenvolvendo-se na nova função, Eliana se preparava para abandonar a antiga.

“A aposentadoria foi gradual, mas difícil”, revela. “O atleta é ou deixa de ser através da competição. Você precisa construir novas referências. A minha foi de treinadora. A última prova que disputei realmente como profissional e com patrocínio foi a Maratona de Nova York em 1992, mas foi maravilhosa.” Na tradicional prova dos EUA, ela foi a melhor sul-americana e ficou no 25º lugar geral. E, a partir de então, passou a correr de forma mais amadora.

“Eu me realizei bastante. Viajei o mundo inteiro e tive resultados melhores do que havia sonhado”, avalia.

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Chegada na edição 2018 da Meia Maratona do Rio de Janeiro

Eliana Reinert: atleta e treinadora

As memórias emocionam e fazem Eliana reviver os seus tempos de ouro no atletismo. Mas, aos 61 anos, não se atém a olhar só para trás: ela mantém vigor físico, vontade de se superar e uma visão crítica em relação ao esporte no país. Atualmente, é formada também em psicologia e alia treinamento físico e mental para seus atletas na pista do Clube Pinheiros, que já é a sua segunda casa.

“Hoje o Brasil possui mais recursos, tem dinheiro, tem uma federação. Há um contingente de talentos impressionante. Mas o atletismo brasileiro não vai para frente”, analisa a treinadora. “O atleta precisa de apoio, de ajuda de ordem psicológica. O atletismo é um esporte de base, e muita gente que pratica vem de uma estrutura disfuncional. Só alguns dos mais bem ranqueados ganham uma bolsa, isso é muito pouco. A diferença entre hoje e há 20 anos não é tão grande assim.”

Nesse sentido, Eliana tenta fazer sua parte. Atualmente, trabalha com atletas amadores, sócios do clube. Para ela, o fenômeno da corrida de rua amadora é um dos grandes pontos positivos para a transformação das pessoas através do esporte. “Sigo motivada para sensibilizar e estimular pessoas a se superarem por meio da corrida”, finaliza Eliana.

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