Maratona sub2h

Nike lança plano audacioso para tentar quebrar essa barreira

Lelisa Desisa, Zersenay Tadese e Eliud Kipchoge. Foto: Clayton Cotterell/Nike.

Por Alex Hutchinson

A Nike pretende quebrar uma das maiores barreiras da corrida – a maratona abaixo de 2 horas – e quer fazer isso com uma urgência de tirar o fôlego. Depois de mais de dois anos de pesquisa, preparação e testes, três atletas de elite – Eliud Kipchoge do Quênia, Lelisa Desisa da Etiópia e Zersenay Tadese da Eritreia – oficialmente começaram os treinos com a Nike com o objetivo de correr os 42 km em 1h59min59 ou menos em algum momento de 2017, com data e local ainda a serem definidos. O atual recorde mundial é de 2h02min57, registrado pelo queniano Dennis Kimetto em 2014.

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A Nike anunciou o ambicioso plano, chamado de Breaking2, nessa segunda-feira. Na semana passada, o editor-chefe da Runner’s World norte-americana David Willey e eu passamos três dias no quartel general da Nike em Beaverton, Oregon (EUA), observando os atletas e conhecendo algumas das pessoas que fazem parte do time, que inclui designers, engenheiros, treinadores e fisiologistas.

Para os três atletas envolvidos, concordar em esquecer a lucrativa temporada de maratonas da primavera no hemisfério norte é um risco calculado e que pode ter um final histórico. “Eu sei que um dia essa barreira [de 2h] será quebrada. Quero ser parte disso”, disse Tadese. Embora a empresa não tenha divulgado quanto o projeto vai custar ou os incentivos financeiros que os atletas receberão, podemos apostar que os valores envolvidos são substanciais.

O anúncio da Nike certamente vai gerar polêmica. Apenas dois anos atrás, em uma investigação fundamentada em dados do que seria necessário para correr uma maratona em menos de 2h, concluí que a barreira seria quebrada em 2075. Essa previsão pessimista foi baseada na suposição de que o recorde continuaria a cair em pequenas margens, mantendo as tendências anteriores. Mas, em vez disso, a Nike pretende diminuir a marca em três minutos de uma vez só, ou cerca de 2,5% – um pulo incomum, mas não sem precedentes. Paula Radcliffe baixou o recorde da maratona feminina duas vezes em uma melhora de quase 2,5% em relação ao tempo anterior. Seu recorde de 2h15min25, registrado em 2003, ainda permanece.

A Nike não está sozinha em acreditar que a barreira está prestes a cair. No final de 2014, Yannis Pitsiladis, professor de esportes e ciência do exercício da Universidade de Brighton, no Reino Unido, lançou seu projeto Sub2Hr, que tinha como meta inicial ultrapassar esse obstáculo em cinco anos. Enquanto a iniciativa de Pitsiladis’s está sofrendo para arrecadar US$ 30 milhões que ele estima ser necessário, o pesquisador já está trabalhando com Kenenisa Bekele, que marcou 2h03min03 em Berlim em setembro e se tornou o segundo maratonista mais rápido da história.

O projeto de Pitsiladis’s atraiu muitas críticas. O cientista esportivo sul-africano Ross Tucker, por exemplo, colocou o período de cinco anos como impossível com as atuais regras do esporte. “Quando a ciência esportiva promete e entrega abaixo do esperado, isso nos prejudica em longo prazo”, ele escreveu.

A Nike está mantendo muito do plano sob sigilo por enquanto e vários detalhes ainda estão sendo finalizados. É improvável que o desafio aconteça em uma maratona aberta e tradicional. Em vez disso, será em um percurso fechado em dia e local que a Nike acredite ser o melhor. Não está claro se o recorde, se alcançando, será sancionado por organizações como a IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo) e a Associação dos Estatísticos de Corrida de Rua. “Nós apenas queremos mostrar que pode ser feito. Queremos expor que está dentro das capacidades fisiológicas do ser humano”, afirma Tony Bignell, vice-presidente de inovação em calçados da Nike. A empresa também não divulgou o plano de testes de doping para os atletas, mas reconheceu a necessidade de ser transparente sobre seu programa de monitoramento.

5 pontos-chave

Então por que a Nike pensa que pode fazer algo em questão de meses o que muitos pensaram ser impossível por anos ou até mesmo décadas a frente? Em primeiro lugar, o tamanho da empresa e seus recursos permitem perseguir todas as opções que poupem tempo. Em nossa reunião com o time de Breaking2, eles enfatizaram 5 áreas essenciais que precisarão ser otimizadas ou melhoradas:

1 – Seleção de atletas: há apenas algumas pessoas no mundo que têm chance de fazer esse tempo. A equipe começou a pesquisa com centenas de corredores que a Nike patrocina – um grupo grande, mas que omite os últimos três recordistas: Kimetto, Wilson Kipsang e Patrick Makau, que são apoiados pela Adidas. Depois, a empresa afunilou os nomes para os maratonistas com tempos abaixo de 2h05 e quem fez uma meia maratona sub1h. Nos últimos anos, 18 dos candidatos mais promissores visitaram a Nike para alguns dias de testes fisiológicos. Um dos elementos: uma corrida de 3 km em um pace de maratona sub-2h – para ver como os atletas reagiam, seguido de uma volta de 400m a toda força.

Não foram só números e recordes pessoais. O time também passou muito tempo com cada atleta, considerando quem tinha mais espaço para melhor e procurando as nuance de atitude e perspectiva que poderiam fazer a diferença entre sucesso e fracasso. Os três selecionados são bem diferentes entre si; mais abaixo detalhamos o perfil de cada um.

2 – Percurso e ambiente: não é nenhum segredo que os detalhes da corrida farão uma grande diferença. Temperatura, subidas, voltas e outros fatores desempenham um papel e todos podem ser otimizados além do visto nas grandes maratonas. Nossa reportagem sobre a maratona sub-2h já mostrou que evitar a resistência do ar (seguindo atrás de outro corredor, por exemplo) pode economizar 100 segundos de um atleta de elite, dependendo das condições do dia. Como a Nike vai escolher organizar a prova ainda não se sabe, mas a empresa tem os recursos para criar as circunstâncias mais favoráveis possíveis.

3 e 4 – Treino/ nutrição e hidratação: essas são as áreas básicas que a maioria de nós se preocupa quando está se preparando para uma maratona. A Nike tem uma grande equipe científica pronta para oferecer suporte em todas as áreas. Apesar disso, nos próximos meses, cada um dos atletas continuará a treinar com seus técnicos em seus próprios ambientes. Conseguir balancear isso, para que os atletas se beneficiem do apoio extra sem interromper o que funcionou no passado, será uma tarefa delicada.

5 – Equipamento: tênis e vestuário são, claro, a base da Nike. Os planos nessa área continuam em progresso e ainda não são públicos.

Os atletas

No fim, nada da ciência importa sem corredores capazes de executar os planos. Abaixo, conheça-os:

Eliud Kipchoge
Eliud Kipchoge. Foto: Clayton Cotterell/Nike.

País: Quênia
Idade: 32
Altura: 1,70m
Peso: 52 kg
Melhores tempos: 12min46 (5.000m), 26min49 (10.000m), 59min25 (meia maratona), 2h03min05 (maratona)

Kipchoge é simplesmente o melhor maratonista do mundo no momento – ele foi medalhista de ouro nos 42 km na Olimpíada do Rio, e isso 13 anos depois de surgir para o mundo ao vencer o campeonato mundial nos 5.000m com apenas 18 anos. Ele tem mostrado consistência sem precedentes na maratona – com sete vitórias em oito provas disputadas na carreira -, mas se mantém humilde, apesar do status de celebridade.

Três semanas atrás, Kipchoge venceu uma meia maratona em Deli, na Índia, com 59min44, um tempo impressionante. Mas ele consegue fazer o dobro da distância com quase o mesmo pace? Ele sorriu quando perguntamos isso e explicou que não está no ápice no momento. “É muito intimidador mentalmente”. A grande pergunta no caso de Kipchoge é: pode alguém que claramente está no topo do seu jogo – e há mais de uma década – encontrar espaço para ficar ainda melhor?

Lelisa Desisa. Foto: Clayton Cotterell/Nike.

Lelisa Desisa

País: Etiópia
Idade: 26
Altura: 1,80m
Peso: 56,7 kg
Melhores tempos: 27min11 (10.000m), 59min30 (meia maratona), 2h04min45 (maratona)

Quando Desisa era uma criança, sua escola ficava a uma caminhada de 50 a 60 minutos de distância de sua casa na zona rural – não longe o suficiente para o aspirante a corredor. Ele costumava dar os livros para os amigos e corria um caminho mais longo para casa. Atualmente, ele é conhecido como o homem que venceu a Maratona de Boston apenas algumas horas antes de bombas explodirem no percurso. Em uma cerimônia pública, ele doou a medalha para a cidade de Boston. Desisa voltou a ganhar a prova em 2015.

Entre os três corredores, Desisa é o mais novo e potencialmente o mais inexplorado. Seu recorde pessoal na maratona de 2h04min45 foi registrado em sua primeira prova de 42 km, com apenas 23 anos, e ele sente que com o apoio da Nike pode melhorar drasticamente. “Nós vemos uns aos outros como irmãos, amigos”, ele diz dos companheiros de desafio. “Mas quando se trata de correr, somos concorrentes”. Em outras palavras, ele quer ser o primeiro a quebrar a barreira – e acredita que pode: “sim, se Deus quiser, eu vou conseguir”.

Zersenay Tadese. Foto: Clayton Cotterell/Nike.

Zersenay Tadese

País: Eritreia
Idade: 34
Altura: 1,61m
Peso: 54 kg
Melhores tempos: 12min59 (5.000m), 26min37 (10.000m), 58min23 (meia maratona), 2h10min41 (maratona)

Tadese é ao mesmo tempo a escolha mais óbvio e a mais surpreendente dos três. Vamos começar com os pontos positivos: ele é o recordista mundial da meia maratona e quatro vezes campeão do mundo nessa distância. Ele também é um medalhista olímpico na pista e campeão de cross country. O mais intrigante é que um teste fisiológico publicado no British Journal of Sports Medicine em 2007 afirmou que Tadese tem “um dos valores mais baixos (se não o mais baixo) já publicados” para economia de corrida, uma medida análoga a economia de combustível em um carro. Números mais baixos são melhores na economia de corrida, o que significa que Tadese é um dos corredores mais eficientes já vistos – uma característica muito boa para um maratonista.

O enigma é por que as tentativas de Tadese nos 42 km foram decepcionantes até o momento. Seu recorde pessoal de 2h10min41 está longe do seu potencial. Além disso, a maioria de suas melhores performances aconteceram antes de 2012; seu oitavo lugar nos 10.000m no Rio marcaram um retorno de uma relativa obscuridade, mas ainda longe do ápice. Baseados nos testes, o time da Nike acredita que Tadese tem o que é preciso para alcançar o objetivo – e que eles podem ajudá-lo a desbloquear seu potencial.

Minha visão

Vou ser honesto: quando ouvi sobre o projeto pela primeira vez, eu ri. E depois de dar uma espiada nos bastidores, o objetivo ainda parece extremamente audacioso. Ainda assim, deixei o Oregon sentindo que é possível. Porém, eu não chegaria ao ponto de dizer provável. Afinal, na maratona, o melhor conselho é sempre pensar a mais, simplesmente porque o evento é tão imprevisível e difícil. A Nike fará seu melhor para controlar cada variável, mas ainda são 42 km. Isso dito, se tudo correr bem nos próximos cinco meses, espero ver a primeira tentativa real de quebrar a barreira das 2h – e, se for um sucesso, não ficarei totalmente chocado.

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