Conheça a história de Eleonora Mendonça, a mulher que revolucionou a corrida no Brasil

Por João Ortega, da Runner´s World

mulher na corrida de rua
Foto: divulgação

Ao longo de seus 70 anos de vida, Eleonora Mendonça se acostumou a ser a primeira. Foi a primeira mulher a representar o Brasil em uma maratona olímpica. Organizou a primeira maratona no país. Lutou pelo direito das mulheres na corrida de rua. Processou pela primeira vez o Comitê Olímpico Internacional (COI).

Todas as décadas dedicadas à corrida vieram de surpresa. Eleonora sempre foi esportista, mas até o início da década de 1970 a sua modalidade era o tênis. Havia quem dissesse que ela seria a sucessora de Maria Esther Bueno no esporte; afinal, com 17 anos a carioca já era campeã sul-americana juvenil. Mas uma lesão nos ligamentos deu outro rumo para a vida da atleta.

Uma mulher na corrida de rua? Sim!

Eleonora se mudou para os Estados Unidos para fazer um mestrado em educação física. Lá, ela testemunhou o crescimento exponencial da corrida de rua no país. Alavancado pela vitória do corredor e ídolo local Frank Shorter na maratona das Olimpíadas de Munique, em 1972, o movimento do “jogging”, termo mais usado na época, aumentava ano após ano. Provas em Boston, Nova York e Chicago começavam a tomar as proporções que conhecemos hoje. Eleonora não poderia deixar de fazer parte de uma mobilização esportiva desse porte.

Dois anos depois, em 1974, ela já se consolidava como uma forte corredora de rua e representou o Brasil no Campeonato Sul-Americano de Atletismo, em Santiago, no Chile. Nos Estados Unidos, a carioca se filiou a um grupo de corredores de ponta, o Cambridge Sports Union, que participava também da organização de pequenas provas locais. Os fundadores do clube eram Sara Mae Berman, tricampeã da Maratona de Boston, e seu marido Larry Berman. “Eles foram ‘mentores’ para mim. Eu estava convivendo com corredores, atletas, pessoas que estavam voltadas para ajudar no desenvolvimento da corrida. Foi uma oportunidade que abracei. Gostava muito de voluntariado e de estar na organização quando não estava competindo”, conta Eleonora.

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De corredor para corredor

No fim de 1976, Eleonora veio ao Brasil disputar a São Silvestre, em São Paulo. Embora a prova já fosse reconhecida e tradicional, também por ser disputada na virada do ano, era um evento único em um país onde a corrida de rua era mais restrita aos militares e pouco atrativa ao público em geral.

“Quando eu vi os corredores na São Silvestre, pensei: ‘O Brasil está pronto para oferecer e organizar corridas e abri-las para o público’”, diz. E já no ano de 1977, no Rio de Janeiro, ela fundou a empresa Printer, ao lado do amigo e corredor Paulo César Teixeira, com o intuito de organizar provas e proporcionar os instrumentos necessários para a adesão das pessoas à corrida de rua.

No mesmo ano, a Printer organizou sua primeira prova, uma corrida de 8 km em Copacabana (RJ). “Escolhemos esse local por ter um nome forte e conhecido, ser bonito, atrativo e com uma distância que não seria nem muito curta, nem muito longa para começarmos”, fala Eleonora. Houve cerca de 300 participantes, considerado pela organização um bom número para uma primeira experiência. “Abrimos a rua para todos: para quem estava caminhando, para quem já estava fazendo ‘cooper’, para os corredores das forças armadas. Com esse retorno, nós nos empolgamos: precisávamos oferecer oportunidades”, relata a corredora.

Democracia no esporte

A partir de então, até o encerramento das atividades da empresa em 1986, foram organizadas dezenas de provas, com destaque para a primeira maratona internacional da história do Brasil, no Rio de Janeiro, em 1979. A Printer também focou em provas voltadas a um público específico, como a Corrida Avon, restrita às mulheres, e as primeiras corridas infantis do país, com diferentes distâncias para crianças com até 12 anos. Como ativista da democracia no esporte, Eleonora reservava atenção especial para trazer diferentes grupos de pessoas para suas provas.

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“Os próprios corredores passaram a exigir – no bom sentido da palavra – mais da organização das provas, como premiações por categoria e medalhas para quem as completava”, conta a atleta. Esse foi um dos legados que a Printer e suas corridas deixaram: um patamar elevado nas provas do país. Além da organização de corridas, a Printer confeccionava materiais esportivos (na época, muitas pessoas faziam as provas de moletom e sapato) e produzia a revista A Corrida, primeira publicação sobre o tema no Brasil.

Para o psicopedagogo Tufic Derzi, que foi funcionário da Printer na época – começou como motoqueiro e chegou a coordenador de provas –, qualquer outra empresa que organizou corridas no país usufruiu o “know-how que a Eleonora desenvolveu”.

Do Brasil para o mundo

Ao longo dos anos como organizadora de provas, Eleonora nunca deixou sua faceta de atleta perder espaço. “Comecei a ter bons resultados a partir de 1976, quando corri minha primeira Maratona de Boston”, conta. “Em 1978, foi meu melhor ano de competição, com o 8º lugar em Boston e 5º em Nova York, onde conquistei a melhor marca sul-americana até então: 2h48min45.”

Desempenhos como estes traziam reconhecimento para Eleonora e aumentavam o interesse pelo esporte, segundo Soraya Vieira Telles, ex-atleta olímpica que correu muitas vezes ao lado da carioca. “Os resultados que eu e a Eleonora tínhamos, aliados à grande cobertura da imprensa, ajudaram a divulgar as corridas de rua”, diz Soraya.

Briga com o COI

Por conta de seus bons resultados nas ruas e grande influência fora delas, Eleonora chegou, em 1979, à presidência; ao lado da atleta norte-americana Jacqueline Hansen, do Comitê Internacional dos Corredores, um órgão que lutava por melhorias na modalidade. Formado por atletas, dirigentes, treinadores e outras pessoas ligadas ao atletismo, o órgão pressionava o COI para trazer igualdade entre os gêneros em eventos dos Jogos Olímpicos. Até então, a maior distância para mulheres eram os 1.500m. Já os homens disputavam corridas de 3.000m, 5.000m, 10.000m e a maratona.

Por dois anos, a pressão desse grupo – que contava com figuras importantes do esporte, fez com que o COI cedesse em parte. Assim, adicionaram às Olimpíadas de 1984, em Los Angeles, as provas de 3.000m e a maratona femininas. Mas as outras distâncias seguiam restritas aos homens.

“O COI achava que, ao ‘dar’ a maratona, estavam reconhecendo que as mulheres também poderiam correr longas distâncias. Mas o que queríamos era a igualdade. Então, em 1983, entramos com um processo sobre discriminação às mulheres contra o COI. A mídia toda estava em Helsinki por conta do Campeonato Mundial de Atletismo. Nós, atletas que estávamos lá, convocamos uma coletiva e avisamos que naquele dia, em Los Angeles, nosso comitê estava processando o COI”, conta Eleonora. Essa foi a primeira vez na história em que a organização foi processada por discriminação.

O processo se arrastou na justiça, e as demandas do grupo foram aceitas nos Jogos de 1988, em Seul (5.000m), e de 1996, em Atlanta (10.000m). No meio tempo, Eleonora se tornou a primeira brasileira a correr uma Maratona Olímpica, em Los Angeles, aos 35 anos. Ela completou a prova em 2h52min19.

Olhando para o futuro

Depois de abandonar a organização de provas e obter a igualdade entre os sexos no atletismo olímpico, Eleonora já não podia correr competitivamente por causa da idade. Retornou então para onde sua história na corrida começara; Massachussetts ( EUA). Nos anos 1990, trabalhou como treinadora de tênis na Universidade de Harvard. Depois, se tornou chefe do departamento de atletismo do Simmons College, universidade privada em Boston, posição em que permaneceu por cerca de 20 anos. “Longe da posição de tomada de decisões, minha carreira tomou outro rumo, mas sempre voltada ao esporte”, diz Eleonora.

Hoje, no Rio de Janeiro, ela se dedica principalmente ao instituto que leva seu nome. Busca preservar a sua trajetória, bem como a história da corrida no Brasil. “É interessante porque poucos sabem, hoje em dia, o quanto ela contribuiu. Não só como atleta, mas também como empresária, para o sucesso que se tornou a corrida de rua no Brasil”, afirma Soraya sobre sua contemporânea nas pistas.

Trabalho pela frente

Além de reviver o passado, o Instituto Eleonora Mendonça também foca em melhorias para o futuro. A atleta vê federações de atletismo, principalmente a do Rio de Janeiro, omissas em relação à corrida de rua. Para Eleonora, o ideal neste momento seria a associação das assessorias de corrida às federações. “Hoje, os donos das assessorias ditam a corrida de rua no Brasil. Um dos objetivos do instituto é trazer as federações para dentro da corrida de rua; e as assessorias para dentro da federação”. Nesse sentido, o Brasil seria cada vez mais bem representado por tantos corredores que treinam e disputam provas sem pretensão de competição por estarem distantes da federação.

Quando Eleonora vê esse enorme contingente de pessoas tomando as ruas do Rio de Janeiro, seja em provas ou treinos, ela se sente um pouco parte da correria. “Eu me vejo nisso tudo. Vejo minhas três facetas: a de corredora, a de organizadora e a de ativista da corrida”, admite.

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