Atleta trans disputa vaga na Maratona Olímpica feminina

Por Redação RW Brasil

Mulher trans nas olimpíadas
Foto: Facebook / Front Runners Atlanta

TEREMOS UMA MULHER TRANS NA OLIMPÍADA? Em 8 de dezembro de 2019, Megan Youngren, de 28 anos, tornou-se uma das 63 mulheres na Maratona Internacional da Califórnia a se qualificar para os testes da Maratona Olímpica de Tóquio 2020. Ela ficou em 40º lugar e fez um tempo de 2h43min52 — e revela ter sido um alívio (e recompensa) depois de quatro meses de treinamento intenso. Em uma entrevista para a Sports Illustraded (SI), Megan contou que vai entrar para a história de seu país como a primeira atleta transgênero em uma qualificatória para a Maratona Olímpica.

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“Estou aberta a falar sobre isso com as pessoas, porque é a única maneira de evoluirmos nessa questão”, explicou Megan à SI. Ela começou a tomar medicamentos hormonais quando ainda era uma estudante universitária, em 2011. E se tornou publicamente transgênero em 2012. Contudo, só foi reconhecida pelo Estado como uma mulher em 2019.

“Eu (e outros funcionários que trabalham para a USA Track and Field há anos), não nos lembramos de um competidor trans em nenhum dos testes para a maratona”, afirmou a porta-voz do órgão Susan Hazzard. No mês passado, Chris Mosier foi entrevistado pelo The New York Times como o primeiro atleta trans a participar de uma prova olímpica dentro do gênero com o qual ele se identifica. Chris foi o primeiro homem trans a competir com cisgêneros nos 50K em Santee, Califórnia. “Para mim, estou abrindo um caminho a todos os outros corredores que quiserem seguir meus passos”, disse ele.

Uma mulher trans na Olimpíada?

Megan lembra que começou a correr em 2013 para perder peso e melhorar alguns aspectos de sua saúde após a transição. Agora, ela ama as trilhas e as subidas e descidas de uma montanha. Megan diz que correr a ajudou a aliviar os sintomas persistentes de uma herpes zoster. Em 2014, ela já seguia um plano de treinamento rigoroso, mas ainda não tinha estrutura e patrocínio.

Nativa do Alasca, Megan correu seus primeiros 42K na Maratona de Equinócio de 2017 em Fairbanks, Alasca, com um tempo de 4h48. O percurso é conhecido por sua altimetria castigante, mas foi lá que ela diz ter sido “fisgada” pela paixão por correr.

Na Maratona de Los Angeles 2019, a corredora conseguiu reduzir seu tempo para 3h06min42. O que a fez buscar seu primeiro sub-3h. Naquela época, ela ainda trabalhava em uma padaria e fazia muitas tarefas manuais. Mas Megan conseguia encaixar um treino ou outro após o expediente. Quando a loja foi fechada em setembro de 2019, ela usou seu tempo livre para correr mais, e aumentou seu volume semanal para 85K — a maioria deles feitos em trilhas.

“Eu pensei que se desse duro e assumisse grandes riscos, poderia fazer 2h45”, conta. “E as pessoas tentam menosprezar as minhas conquistas falando que isso para mim é fácil porque sou trans. Mas e as outras 500 mulheres que também estão qualificadas para os testes na Maratona Olímpica dos EUA? Eu treinei. Tive sorte. Não sofri lesões. E isso funcionou para mim. Aposto que muitas outras tiveram que fazer isso também.”

Como chegou até aqui

Antes da Maratona Internacional da Califórnia, o recorde pessoal de Megan era de 2h52min33. Ela o havia conquistado na Maratona de Humpy, no Alasca, onde teve que lutar contra ventos fortes e manteve um ótimo ritmo nos primeiros 30 quilômetros.

“Em várias ocasiões eu achei que ia conseguir o tempo necessário para as qualificatórias. Mas sempre quebrava antes”, lembra. “Dessa vez, foi realmente difícil, mas eu consegui. A prova em si me destruiu mentalmente, mas eu consegui.”

Mulher trans na Olimpíada: regras atuais

Nos últimos anos, organizadores das grandes provas revisaram suas regras em relação aos participantes trans. Em abril de 2018, a Maratona de Boston atualizou sua política sobre corredores transgêneros, afirmando que os atletas podem se qualificar e participar da maratona como seu gênero identificado. A Western States Endurance Run, uma corrida histórica de 160 quilômetros na Califórnia, divulgou uma política de que as mulheres trans podem competir na categoria feminina, desde que estejam em tratamento hormonal por pelo menos um ano. Um participante transgênero pode se registrar para competir como homem sem restrições.

O USA Track and Field diz que segue as regras estabelecidas pelo Comitê Olímpico Internacional em relação a participantes transgêneros para os testes da Maratona Olímpica. Uma atleta transgênero deve demonstrar que seu nível de testosterona está abaixo de 10 nanomols/litro por pelo menos 12 meses antes da competição e deve permanecer assim. O COI planeja implementar diretrizes ainda mais rígidas que pretendem reduzir os níveis de testosterona no soro para 5 nanomols/litro.

Megan tem níveis bem abaixo. Da última vez que mediu, estavam em cerca de 2 nanomol/litro. “Fiz tudo de acordo com as regras e tenho como provar.”

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