Preso há 20 anos, corredor treina todos os dias e encontra ajuda na busca pela liberdade

Por João Ortega

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Foto: Thiago Guimarães H3C/Runner's World Brasil

Uma vida na corrida, meia vida na prisão. Dos 40 anos que Marcio Juvenal completou em abril, metade ele passou atrás das grades. A corrida o ajuda todos os dias na busca pela liberdade. Confira a reportagem completa de João Ortega.

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Uma vida na corrida, meia vida na prisão

A sensação de ver o mundo ficar para trás costuma me levar para um estado de espírito de reflexão. Quando corro, sinto meus pés empurrando o chão, enquanto os pensamentos viajam e os quilômetros se acumulam às minhas costas. Naquela madrugada, eu estava sentado olhando pela janela do ônibus, mas o efeito era o mesmo. Viajava pela rodovia dos Bandeirantes – restavam ainda seis horas de viagem até chegar a São José do Rio Preto – imerso na minha consciência.

Refletia sobre liberdade. Desde que entrei para o mundo da corrida, a ideia de liberdade se tornou frequente nas minhas conversas. Entrevistei dezenas de corredores, entre iniciantes, atletas amadores e profissionais. Estreantes nos 5 km até figuras carimbadas nas ultramaratonas mais desafiadoras do planeta. Para a grande maioria, a corrida trazia a sensação de se estar totalmente livre, mesmo que por um tempo determinado. E todos esses corredores, ao terminarem seus treinos, retornavam às casas em que escolheram morar, com as pessoas com quem decidiram partilhar a vida.

Naquela noite, porém, eu estava no começo da minha jornada para entrar em um mundo privado de liberdade. O destino da viagem era uma penitenciária na cidade do interior paulista, onde eu entrevistaria na manhã seguinte um preso que, mesmo no cárcere, mantinha o hábito diário de correr. A ideia de entrar naquele universo levantava na minha cabeça uma grande questão: será que um esporte pode dar até a um presidiário a sensação de liberdade?

Eu deveria dormir, mas o sono não vinha. Resolvi vasculhar minha mochila em busca de uma leitura que pudesse esclarecer minhas ideias confusas. Encontrei uma coletânea de contos do escritor inglês Alan Sillitoe, cuja história principal e de abertura se chama “The Loneliness of the Long Distance Runner” (“A Solidão do Corredor de Longa Distância”, em tradução livre). O enredo conta a trajetória de Smith, um garoto de origem pobre que é confinado em um reformatório juvenil depois de tentar roubar uma padaria. Lá, ele encontra na corrida uma distração da rotina de trabalho árduo e da brutalidade das autoridades locais. Pareceu-me uma história apropriada para a ocasião.

Não tardou para que o conto de Alan Sillitoe trouxesse o tema da liberdade à tona: “Às vezes, penso que nunca fui tão livre quanto nas duas horas em que estou trotando para fora dos portões e dou a volta em um carvalho no fim da pista. […] Eu me sinto congelado no início. Não consigo sentir as mãos, os pés ou a minha própria carne, como se fosse um fantasma que não saberia se a terra ainda está embaixo dos pés se não a visse de vez em quando através da névoa. Mas mesmo que algumas pessoas, se fossem escrever para suas mães, definissem esta dor gelada de sofrimento, eu não. Porque sei que em apenas meia hora eu estarei aquecido, e, depois, quando eu chegar ao fim da rua e atravessar os campos de trigo, estarei tão quente quanto uma panela no fogo e tão feliz quanto um cachorro abanando o rabo”, relata Smith.

Confesso que, ao ler esse trecho, o calor do personagem se transferiu para mim. Imaginei que, quando eu chegasse na penitenciária, Marcio Juvenal, a estrela desta reportagem, teria uma visão tão inspiradora quanto Smith. Na minha cabeça, o calor de São José do Rio Preto poderia até fatigá-lo, mas jamais tirar a sua sensação de estar livre das celas, da rotina dentro da prisão e do passado pelo qual estava sendo punido. Pelo menos era por isso que eu torcia enquanto atravessava o Estado de São Paulo naquela madrugada.

Um portão entreaberto

Cheguei na rodoviária de São José do Rio Preto junto com o sol. Era uma manhã de maio sem nuvens, bem mais fria que o de costume na cidade (ainda bem!). Compensei as horas sem dormir com duas xícaras de café e me encontrei com Tiago Guimarães, o fotógrafo que iria me acompanhar naquela aventura.

Entramos no carro dele e seguimos ao Centro de Progressão Penitenciária (CPP) Dr. Javert de Andrade. Como eu, Tiago não sabia o que esperar do local. O imaginário que temos das prisões vem, principalmente, daquilo que vemos nos filmes e nos noticiários. Por isso nos surpreendemos assim que avistamos a cadeia.

Não havia torres de vigia nem policiais fortemente armados de olho em possíveis fugitivos. Do lado de fora, era possível ver que o espaço era muito amplo e, em sua maior parte, a céu aberto. Um grande portão verde, que separava quem estava do lado de fora e de dentro, estava ainda entreaberto quando chegamos. Havia acabado de passar uma caminhonete carregando caixas e mais caixas de alface.

Seguimos para a entrada do presídio, onde fomos informados que tínhamos de deixar os celulares na recepção. A seguir, passamos os demais pertences pelo raio-x e cruzamos um detector de metal, em um esquema de segurança semelhante ao de um aeroporto. Enquanto aguardava a chegada do dr. Ademir Panciera, diretor do presídio, assisti à revista da alface. Além de passar pelo raio-x, as verduras eram remexidas uma a uma pelas mãos de um carcereiro. Pensei em quantas horas, todos os dias, eram gastas para revistar a comida que alimenta o presídio inteiro.

Enquanto eu observava as alfaces, Tiago puxou minha atenção para a equipe que fazia a faxina da área administrativa do presídio, onde esperávamos. Todos homens de calça bege, camiseta branca e chinelos. “São os presos”, ele me disse, baixinho. Reparei em como os chãos estavam brilhantes. Os jardins, bem cuidados. As janelas, límpidas.

Não tardou a chegada do dr. Ademir. A sala do diretor era ampla e apresentava as bandeiras do Brasil e do Estado de São Paulo, ao fundo. Pedi para ele me explicar a proposta do presídio e como ele se diferencia daquilo que estamos acostumados a ver na televisão e no cinema.

O CPP de São José do Rio Preto é um presídio de regime semiaberto. Isso significa que os presos que estão lá cometeram delitos considerados leves ou já passaram a maior parte da sentença em regime fechado e progrediram, por bom comportamento, a um ambiente com maior integração com o resto da sociedade. Em vez de celas, há alojamentos coletivos, com dezenas de camas. Ao todo, cerca de 2.000 presidiários residem ali, embora a rotatividade seja grande. Alguns dos detentos trabalham durante o dia fora da prisão e retornam à noite. Outros trabalham na marcenaria ou na lavanderia interna, que presta serviços para a cidade. Ainda há, claro, as tarefas na própria prisão, como é o caso da limpeza, por exemplo.

“Aqui no regime semiaberto usamos a palavra reeducando para se referir ao preso. Porque a prisão não é só o castigo, ela também é responsável pela ressocialização”, explica o diretor, que já exerceu o mesmo cargo em presídios de regime fechado. “O regime semiaberto se difere muito do fechado porque aqui trabalhamos a autodisciplina. Não necessariamente faremos o sentenciado ficar aqui o dia todo. É algo que a sociedade não entende muito, mas, como ele está a um passo de voltar para casa, ele precisa estar o mais acostumado possível com o mundo lá fora.”

Quando o reeducando sai para trabalhar, ele não tem nenhum tipo de escolta. Fica sob a responsabilidade dele o retorno, à noite, para o CPP. “Todo o trabalho que é feito aqui é a preparação, em todos os aspectos, para o retorno ao convívio social: o aspecto profissional, escolar, psicológico, de cultura e de saúde. E aí entra atividade física, o esporte. Todas as facetas que um cidadão tem por direito na sociedade também são dadas aqui para prepará-lo para essa volta”, explica o dr. Ademir.

Nesse sentido, o diretor do presídio considera a prática de exercícios físicos como essencial para o trabalho psicológico dos sentenciados. “Toda vez que a gente pratica esporte, nos dá um fôlego na questão psicológica, nos alivia as tensões. O ambiente da prisão nunca é de felicidade, de alegria. Por mais que um preso suporte a prisão, ele tem tendências a sofrer com a privação de liberdade. O esporte, entre outras atividades (como estudo, trabalho e religião), consegue amenizar o peso nas suas costas”, opina.

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Foto: Thiago Guimarães H3C/Runner’s World Brasil

O corredor que parou no tempo

Foi apenas no fim da conversa com o diretor que tive a chance de perguntar qual havia sido o delito cometido por Marcio Juvenal, o presidiário que conheceria em breve. Com apenas 19 anos de idade – hoje ele tem 40 –, ele foi sentenciado por latrocínio (roubo seguido de morte). Depois de passar quase 20 anos no regime fechado na Penitenciária de Valparaíso, a 200 km de São José do Rio Preto, foi transferido para o CPP Dr. Javert de Andrade em agosto do ano passado.

Nos minutos em que esperava o funcionário do presídio buscar Marcio para a entrevista, eu pensava naquilo que me era cotidiano, mas que ele nunca vivera, por ter passado metade da vida em uma cela. A revolução digital, que transformou a maneira como nos relacionamos e nos conectou por meio de um dispositivo que cabe no nosso bolso, teria tido algum impacto na rotina dele? As disputas políticas desta década, que marcaram o passado recente do país, seriam para ele apenas notícias de um universo distante?

Quando Marcio entrou na sala, seu olhar sereno e o sotaque do interior paulista desarmaram a enorme distância social que existe entre nós. Magro e forte, o corpo revela sua aptidão atlética. Os óculos são o único sinal da meia-idade. Conversa com a mesma leveza de tantos outros corredores de cuja liberdade nunca foram privados.

Marcio contou que o costume de correr vem da infância. Em Campinas, cidade onde nasceu e viveu, acompanhava o irmão mais velho, Mauro, até a academia. O caçula não gostava de levantar peso, então corria na pista que rodeava a lagoa Taquaral. A partir dos 13 anos, a corrida se tornou um hábito diário. “Era um momento em que eu ficava concentrado ali, sozinho, e dava tempo para focar nos meus pensamentos, nos meus problemas. Meu pai foi embora de casa, mas, querendo ou não, todo mundo tem seus problemas. Só que aquele lugar virou meu cantinho, em que eu ficava mais sossegado, era onde eu me sentia bem”, revela.

Além disso, Marcio ia todos os dias para a escola de bicicleta. Competia com os colegas de escola em qualquer esporte que fosse. “Se falasse que eu chegava em todas em primeiro, estaria mentindo”, diz, rindo. “Tinha amigos que eram bons também.”

O corredor conta que treinar no regime fechado era uma tarefa custosa. O período de atividades ao ar livre era delimitado, e o espaço, muito pequeno para a prática de tantos detentos. Por isso, quando foi transferido para o CPP de São José do Rio Preto, teve uma grata surpresa. “Quando cheguei aqui, eu vi esse espaço enorme, o horizonte e tudo. Nossa, me agradou para caramba! Minha primeira corrida foi à noite, na quadra de areia. No primeiro dia, corri 200 voltas. O pessoal disse que nunca tinha visto alguém correr assim, que normalmente se fazia no asfalto perto do alambrado. Eu falei que ia continuar correndo na areia porque queria pegar resistência. Toda vez que eu corro, procuro quebrar uma meta, fazer mais”, conta.

Se a mentalidade de superar limites e objetivos é comum aos demais corredores, as ferramentas não são. Quando chegou ao regime semiaberto, corria descalço. Depois de alguns meses, até recebeu um calçado de corrida de presente de um amigo de fora, mas em apenas três dias os tênis “sumiram”. Lá dentro não tem GPS para marcar a distância nem relógio que revela o pace. Não há planilha ou assessoria de corrida. Apenas Marcio, seus pés, as quadras de areia e o asfalto ao lado do alambrado.

Isso não quer dizer que Marcio treine sempre sozinho. “Se tiver alguém correndo junto é bom. A gente vai correndo, conversando e às vezes até esquece o tempo passar”, conta. “Tem umas pessoas que tentam me acompanhar, mas dizem: ‘Ah, não vou mais com você, você corre muito’. Hoje tem dois senhores de idade que também correm por ali. Eu estou sempre incentivando.”

Perto de ser transferido para o regime aberto – em que o sentenciado volta para casa mas ainda vive sob regras especiais e supervisão das autoridades –, Marcio ousa pensar no futuro. “Eu tenho um tio que vive me dizendo: ‘Sai logo daí e vamos participar de umas corridas’.” O reeducando sabe que, para ter destaque no esporte e na vida fora da prisão, precisará de muita dedicação. “Meu filho Gabriel já tem um menino, meu neto. Isso me fez pensar que eu precisava mudar. Vou evitar as velhas amizades, o bairro em que eu nasci e fui criado. Querendo ou não, aparecem convites para trabalhar no lado errado, mas eu parei com essas atitudes. Mudei a minha vida, desde o regime fechado eu leio bastante também”, revela.

Os anos privados de liberdade, Marcio nunca vai recuperar. Quando voltar de vez à sociedade, terá de superar o tempo que, para ele, ficou parado. A poucos passos da liberdade, o corredor verá que seu esporte preferido é hoje uma febre nacional. Também vai descobrir quantos quilômetros ele corre todos os dias e qual é o seu pace médio. E, mais importante que tudo isso, poderá ver o neto crescer dia após dia, já que não teve a mesma oportunidade com o próprio filho.

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Foto: Thiago Guimarães H3C/Runner’s World Brasil

O esporte nos presídios

Na viagem de volta para São Paulo, dormi. Acordei apenas na rodoviária da Barra Funda, com a sensação de que sonhava que corria em círculos.

Toda essa aventura me lembrou de uma conversa que tive, no início deste ano, com o professor Luiz Dantas, especialista em pedagogia do esporte na Escola de Educação Física e Esportes da USP. Debatíamos sobre a função do esporte na escola, e ele me disse que “um jeito de se educar é viver o mundo em que se almeja”. Creio que a mesma ideia possa ser transportada para a reeducação. “Se você quer uma sociedade democrática, as crianças devem estudar em escolas democráticas”, exemplificou o professor.

O CPP de São José do Rio Preto me pareceu, naquela visita, uma representação interessante de uma sociedade saudável. No pátio de convivência, havia uma biblioteca, quatro quadras de areia, uma área para musculação, salas de aula, além de espaços livres com reeducandos tocando violão e jogando dominó.

Entretanto uma notícia de março de 2018 revela que uma briga entre presidiários daquela instituição resultou em um morto e um esfaqueado em estado grave. É claro que uma ocorrência não anula todo o trabalho que vem sendo realizado lá dentro, mas talvez indique que a minha presença na cadeia possa ter influenciado para um comportamento diferente dos reeducandos naquele dia.

De todo modo, o esporte se enquadra, indiscutivelmente, como uma importante ferramenta de transformação humana. “Esporte é o brinquedo do adulto. A realidade é muito forte, nos amassa. Sem brincar, não dá para aguentar. Correr, com exceção dos atletas profissionais, não serve para pôr comida na mesa. Mas isso não significa que, para muita gente, deixe de ser uma necessidade”, explica Luiz Dantas.

Aliás, foi exatamente esse professor que me emprestou o livro de Alan Sillitoe. Depois de me apresentar brevemente a história, ele se despediu com um recado: “A transcendência é uma característica do esporte e da brincadeira. Dentro da prisão, a pessoa, naquele momento da corrida, consegue sair daquelas condições, transcender para um outro lugar, um outro estado de espírito”.

Diversas pesquisas científicas corroboram com a visão de Dantas e reconhecem os benefícios da prática esportiva dentro de presídios. Um estudo publicado em 2014 no Caderno de Educação Física e Esporte Marechal Cândido Rondon buscou analisar o esporte em um presídio de segurança máxima pela perspectiva dos presos. “A Prática de Atividades Físicas no Presídio: O Que Pensam os Apenados?” constata que “a atividade física praticada através do esporte é uma ferramenta importante e motivadora para os detentos entrevistados, embora metade deles desconheça os fundamentos” dos esportes praticados.

A pesquisa revela ainda que “as práticas esportivas quando adequadamente conduzidas através de vivências de exercícios, treinos e competições, entre os detentos, podem contribuir para que eles consigam se adequar às regras e normas vigentes da sociedade durante e após o cumprimento da pena, bem como aprender a lidar com comportamentos transgressores”. Ou seja, é parte fundamental da reeducação dos presos para o retorno à liberdade.

Por outro lado, um estudo realizado em presídios no Canadá encontrou uma contradição na prática esportiva entre presidiários. Publicada em julho de 2017 no canal The Society Pages, a investigação intitulada Sports Behind Bars: Social Control, Resistance, and the Physical Culture of Prisons (Esportes Atrás das Grades: Controle Social, Resistência e a Cultura Física de Prisões, em tradução livre) concluiu que treinos e competições esportivas estão no cerne do conflito entre a administração e os presos. Enquanto a direção dos presídios usa o esporte como uma ferramenta para atingir metas através da diminuição da agressividade dos presos, estes aproveitam o momento da prática esportiva para escapar das regras e “tomar as rédeas” do próprio comportamento. A forma que a administração prisional inclui o esporte como uma das “tarefas” obrigatórias dos prisioneiros acaba roubando deles a sensação de liberdade, que deveria ser inerente à prática esportiva.

Retorno à liberdade

Depois de ler sobre essa investigação nas prisões do Canadá, recorri novamente ao conto inglês “A Solidão do Corredor de Longa Distância” para esclarecer minha mente. A ficção tem, para mim, esse poder de tornar a realidade mais palpável.

Ao longo da sua trajetória no reformatório, Smith acaba recebendo atenção especial da administração devido ao seu ótimo desempenho na corrida. Em certo momento da história, é esperado pela direção que ele ganhe uma prova nacional entre diversas instituições juvenis. Apesar de chegar no fim da corrida com muita folga para os demais participantes, ele decide não cruzar a linha de chegada, como forma de protesto contra os administradores do reformatório. Smith deixa todos os outros corredores passarem na frente dele. E, mesmo punido severamente com trabalho pesado no restante dos seus dias, ele não se arrepende.

Assim como os presidiários que fizeram parte do estudo canadense, o personagem fictício vê o esporte muito além do que apenas uma ferramenta para alcançar os resultados que a direção espera. A corrida se torna, para Smith, um meio para alcançar a própria liberdade. Neste caso, uma liberdade que é só dele, que ninguém pode tirar. É a liberdade de tomar as rédeas das próprias ações, com a responsabilidade de não prejudicar outras pessoas (como o padeiro que rouba no início da história).

É exatamente essa liberdade que eu vi nos olhos de Marcio Juvenal quando ele entrou na sala do diretor. Claro que o corredor paulistano deseja voltar para casa, abraçar o filho, cuidar do neto. Mas, em tantos anos correndo e refletindo sobre seus erros do passado, aprendeu a ser o senhor das suas próprias ações. E é claro que a corrida possui um papel fundamental nessa trajetória.

Quando perguntei a ele se achava que o esporte tem a capacidade de mudar uma vida, Marcio não exitou por um segundo. “O esporte já mudou várias vidas”. “Tenho um amigo que passou 25 anos na cadeia. Hoje ele é professor de uma escola de futebol na Bahia. Eu até me emociono quando imagino ele treinando a molecada”, conta.

Conversando com alguns funcionários do CPP de São José do Rio Preto, fiquei sabendo que havia um outro bom corredor entre os reeducandos, que tinha sido transferido para o regime aberto e voltado para casa no começo do ano. Disseram-me que, por conta da sua juventude, era ainda mais rápido que Marcio.

Assim que cheguei em São Paulo, entrei em contato com esse corredor. Perguntei se gostaria de dar uma entrevista e participar da reportagem. Respondeu, com muito respeito, que estava muito ocupado sustentando duas filhas. Revelou que recebe uma miséria por cada dia inteiro trabalhado. Nem tinha mais tempo de correr, muito menos dinheiro para comprar equipamento. “Você sabe como é a vida de um jovem ex-presidiário no Brasil?”, questionou-me.

Não há dúvida de que a existência de instituições como o CPP Dr. Javert de Andrade mostra avanços na reeducação dos presos. Mesmo que por um breve momento do dia, o esporte na prisão traz de volta a sensação perdida de liberdade. E traça um horizonte mais esperançoso pela frente. Mas, como sociedade, temos uma bela estrada pela frente no que diz respeito à reinserção dessas pessoas. É triste pensar que, para muitos, sair pela porta da frente do presídio possa significar um retrocesso em termos de liberdade. 

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