Por que correr?

Como nasceu minha história com meu esporte do coração

Por Anita Moraes

Todo mundo me falava: “você é louca. Como consegue correr 5 km? Por que 10km? 21 km, você enlouqueceu de vez? De quem você está querendo fugir?”

A corrida parece que se torna realmente um vício, queremos correr mais, mais rápido, e, conforme vamos ganhando maturidade na quilometragem escolhida, achamos que o desafio pode ser ainda maior.

Por um tempo, você se desafia a correr mais rápido, a melhorar seu pace médio e a sempre bater o recorde pessoal ou o tempo de um amigo próximo. Correr é viciante, libera endorfina, serotonina, alegria, mexe com a sensibilidade da pele, do olfato, do paladar, com sua circulação sanguínea. A corrida te deixa mais bonita para você mesma. Uns dizem que você emagrece demais – chegamos a ouvir “nossa, virou tripa seca” – mas não, a corrida te embeleza por dentro e por fora.

Eu comecei a tentar correr na virada do milênio, de 2000 para 2001, com 14 anos, quando meu pai resolveu que correria a São Silvestre do Milênio. Nós vivíamos no centro da cidade de Assis, interior de São Paulo, e meus avós moravam em uma chácara longe da cidade (uns 6km de distância), mas onde o trajeto era bastante confortável e sem muito movimento.

Meu pai começou a treinar uns 6 meses antes da prova e disse que iria correr a prova inteira, sem andar. Correr a “maratona” de São Silvestre era o ápice para os atletas amadores. Então, como boa companheira que sou, resolvi correr algumas vezes com ele, e, juro, naquela fase o “mosquito da corrida” não me pegou, mas eu gostava muito de correr com meu pai. Era como se eu pudesse conhecê-lo melhor como pai, motivador, atleta e amigo.

Foram semanas de treino, semanas que pareciam não passar e muitas idas à casa dos meus avós, correndo na Rodovia Tabajara com meu pai. A boa recompensa de tudo isso era quando chegávamos à chácara e minha vó Lua nos recebia com café, Coca Light, sanduíche de presunto e queijo e, quando era final de semana, belas bandejas de pão de queijo.

Naquela época não tínhamos em Assis nenhum tipo de assessoria esportiva que nos orientasse com uma planilha de treinos, ou quais tipos de suplementação fazermos ou qual tênis que mais se adequava a sua pisada – acho que meu pai não sabe a pisada dele até hoje, mas acabo sempre comprando um neutro para ele. Mas correr com meu pai era sempre desbravador e interessante. Ele tinha postura de corredor profissional, assistia a vídeos de corrida na TV, buscava informações, e, enquanto corríamos, dizia: “Você tem que levantar o queixo, deixe-o a 90 graus do seu pescoço, levante os calcanhares, cuidado para não arrastar seus pés, mexa os braços para frente e para trás, solte as mãos, não cruze os braços, etc.” Eu não entendia quase nada do que ele estava falando, mas copiava e confiava.

Eu me recordo que nessas corridas tentávamos dar os famosos “tiros” em alguns trechos do caminho, e lembro com risada das “bufadas” que ele dava, extremamente ofegante e sem preparo, e depois me olhava sério e dizia “isso é difícil, mas importante no treino”, e fazia caras e bocas que não esqueço até hoje.

Passada estas longas semanas de treinos, meu pai finalmente foi para a grande prova da vida dele, a 76ª edição da São Silvestre em 31 de dezembro de 2000. Este dia foi mágico para ele. Iríamos passar o ano novo em São Paulo, que para mim era o êxtase da adolescência. E, neste dia, ele ficou na casa da minha tia, irmã dele, que o acompanhou na largada da prova e o ficou aguardando até o final, onde ele trazia a medalha tão sonhada.

Sua descrição de cada quilômetro corrido, as pessoas que passavam por ele, as sensações, as vontades de caminhar e acabar com tudo aquilo, tudo que sentiu e viu, foi simplesmente incrível e avassalador. Foi lindo e mágico, sua felicidade estava estampada na cara, sorriso de orelha a orelha, a medalha no pescoço e orgulhoso de si mesmo – acho que nunca tinha sentido meu pai tão feliz. E isso foi radiante!

Mas apesar de toda a sua descrição, sensação e felicidade, me entristeci demais neste dia, pois não o tinha acompanhado, não pude abraçá-lo naquele dia tão importante. Isso me trouxe uma sensação de impotência, de não companheirismo, de rejeição e frustração comigo mesma que demorei a superar.

Não sei porque não fui, simplesmente resolvi não ir. Mas, depois de 15 anos, resolvi buscar essa sensação, energia, alegria e parceria com meu pai correndo minha primeira maratona em Berlim, que foi 100% dedicada a ele. Então, quando corro estes muitos quilômetros nos treinos e provas, não estou fugindo de nada, nem de ninguém, como me perguntaram, mas estou indo encontrar a Anita forte, determinada, companheira, amiga, amante da vida, e meu pai que deixei lá em São Paulo de 2000 na Avenida Paulista, e que sinto saudades. Naquele dia, meu pai ficou em 8896º  na colocação geral, em 438º  na sua categoria. Ele finalizou triunfalmente os 15 km em 1h33min21. Obrigada pai, estamos juntos!

anitaA engenheira agrônoma Anita tem 29 anos, começou a correr em 2012 e já fez mais de 25 provas, dos 5 aos 42 km. Tem 22min01 nos 5 km, 45min59 nos 10 km, 1h43 nos 21 km e 3h58 nos 42 km, mas garante: “A corrida para mim não é apenas bater tempos. É uma relação espiritual”.

 

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