O atleta está a pé

Se o Brasil sonha com medalhas, está na hora do empresariado acordar e investir em atletismo

Quando escrevo este texto, estamos a dias dos Jogos, o clima de torcida começa a tomar conta do brasileiro e eu me pego pensando: “Como cobrar medalhas se o Brasil não oferece apoio? Se vivemos no país do futebol e apenas do futebol? O que sobra para outros esportes”.
Só para você ter uma ideia, há atleta de ponta na corrida e que vai competir no Rio com um salário de R$ 4.000 mensais do clube. Se tiver uma marca esportiva por trás, leva mais uns R$ 3.000 ou R$ 4.000. Se defende o exército, mais R$ 4.000. Pode não ser pouco para o Brasil, mas falamos do cara que está entre os melhores. Pelo que apurei, corredor que chegou ao topo pode ganhar R$ 20.000 de salário por mês, isso enquanto jogador do Corinthians, em início de carreira, que nem escalado para ficar no banco de reservas é, tem salário superior a R$ 40.000.

Corredores que são recrutados em início de carreira têm ajuda de custo de R$ 800 mensais. Para esses atletas, que mudaram de cidade, a forma de complementar a renda é competir quase todos os fins de semana para ganhar um extra de premiação. Isso compromete o ciclo de treino e a recuperação. E faz com que eles privilegiem provas de rua em detrimento das de pista.

Difícil competir com os norte-americanos, que têm uma estrutura de recrutamento que começa no colégio, passa pela faculdade gratuita, até serem vistos pelas marcas esportivas que investem pesado no desenvolvimento dos atletas. No Brasil, recentemente um atleta olímpico, ganhador de maratona internacional, medalhista de ouro em Pan-Americano, com muita visibilidade na mídia, foi convencido por uma marca de óculos multinacional de grande porte a receber apenas material (e não dinheiro) como patrocínio. Ele tentou renegociar e ouviu da multinacional que não tinha orçamento para pagar um salário.

A falta de apoio não para por aí. As grandes provas nacionais pagam prêmios de até R$ 30.000 ao vencedor. Nada mal, mas o problema está em receber esse dinheiro. Por regra, o prêmio deve ser pago após o resultado negativo do exame antidoping. Mas, com alguma frequência, esse valor demora bastante para ser depositado. Em outro caso de que tomei conhecimento, após dez meses (meses, não dias) do prazo de pagamento, os atletas começaram a pressionar a organização da prova, que alegou falta de dinheiro e, após muita insistência, pediu para parcelar. Como parcelar um prêmio que virou dívida e que foi conquistado com muito suor e dor de uma pessoa que ganha R$ 800 ao mês? Difícil exigir resultado dessa turma.

É fácil achar culpados: COB, federações, cartolas e políticos.

E o empresariado? Qual o papel das empresas no desenvolvimento do esporte no Brasil? Contamos nos dedos casos de sucesso, como o NAR – Núcleo de Alto Rendimento feito pela família Diniz. Mas é pouco, é irrisório. Não podemos cobrar nada dos atletas. Só sonhar com casos de superação, apesar da falta de apoio.

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