Após ouro no Pan, Ederson Vilela mira as Olimpíadas

Por Thieny Molthini, da Runner's World Brasil

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Ederson Vilela
Trofeu Brasil de Atletismo | Esporte Clube Pinheiros | Foto: RicardoBufolin/ECP

Ouro nos 10.000m dos Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru, Ederson Vilela conversou com a Runner’s World Brasil em abril deste ano (ed. 123). Em entrevista exclusiva, ele contou um pouco da sua história e do seu treinamento com o objetivo de atingir índices para os Jogos. Agora, você confere a entrevista completa aqui no nosso site.

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Ederson Vilela, corredor por vocação

Com 9 anos de idade, Ederson Vilela Pereira conheceu a corrida, lá em 1999, na cidade de Caçapava (SP). Algo despretensioso: quando foi ver o irmão em uma corrida do bairro, decidiu se inscrever e participar também, ali, na hora da prova. 

Na semana seguinte, o irmão de Ederson o levou a um clube. Por lá, esse e outros esportes passaram a fazer parte da sua vida. Com a oportunidade de treinar, ele começou a correr com um professor e a fazer aulas de futebol. Por ter mais afinidade com a bola, Ederson decidiu deixar a corrida e se dedicar ao futebol quando tinha entre 12 e 13 anos, e assim foi até os seus 15 anos…

Foi quando a corrida retornou à sua vida. Ederson deixou de correr esporadicamente e passou a treinar novamente para corrida. Seus treinos aconteciam numa pista simples que existia no clube, de terra, que dava a volta no espaço. “Comecei a fazer corridas melhores e a participar de mais provas, porque antes não tinha como me inscrever por conta da idade”, lembra. Nesse momento, ele percebeu uma sintonia com o esporte. Estava aprendendo como evoluir e percebendo que, talvez, pudesse ser bom nisso. Dali em diante, sua vida na corrida foi acontecendo de maneira natural, uma coisa foi puxando a outra. 

Ainda com 15 anos, Ederson participou da Copa Brasil de Cross Country. Com essa prova, ele se classificou para o Campeonato Sul-Americano de Cross Country. Com o bom resultado no campeonato, surgiu um convite para correr pela prefeitura de São José dos Campos (SP). A corrida, agora, passaria a gerar lucros: R$ 250 ao mês, por um ano, para correr. “Então eu me empolguei. No futebol, eu não estava ganhando dinheiro”, lembra o corredor. 

Começo de uma vida

Ederson Vilela agora era um atleta profissional. “Eu ia para São José dos Campos de ônibus duas ou três vezes por semana e treinava o restante na minha cidade. Eu precisava ir muito cedo, não me alimentava direito, estudava à noite. Rotina de atleta que está começando mesmo.”

Ederson Vilela
Atletismo ECP 2019 | Esporte Clube Pinheiros | Foto: RicardoBufolin/PanamericaPress/ECP

Por ser categoria de base, não havia muita cobrança, mas a cada ano os resultados do seu treinamento apareciam, e ele ia aumentando o seu salário lá dentro. Assim, quando se formou no ensino médio, em 2007, Ederson conversou com os seus pais e decidiu continuar como atleta profissional da cidade, já que a faculdade também não seria possível naquele momento. “Como eu estava com um salário legal em São José dos Campos e vi que tinha futuro, resolvi investir, e minha mãe e meu pai me deram suporte em casa”, conta o corredor. 

E mais resultados vieram: campeão em pista nos 3.000m em 2006 e 2007 e vice-campeão sul- americano nos 3.000m em pista. Foi somando conquistas que, em 2010, um novo convite surgiu, agora para correr por um grupo em Campinas (SP), para onde teve que se mudar.  “Larguei o trabalho em São José e fui morar numa república com outros atletas”, lembra.

Amadurecimento

Com 20 anos, ele viveu o momento mais difícil da sua carreira no esporte. “Era difícil voltar para casa. Um rapaz com essa idade quer se divertir também, mas a gente abre mão de tudo isso”, conta. “Esse período é o que eu posso considerar o mais difícil, mas aprendi muita coisa. Foi necessário.”

Muito além das dificuldades do dia a dia, da distância da família e dos amigos, Ederson sentiu a pressão da categoria “adulto”. O atleta se manteve nesse grupo por três anos e, em 2013, ele conseguiu voltar a correr pela prefeitura de São José dos Campos. 

Colhendo frutos

De volta à sua rotina, sua casa, sua família, Ederson viveu uma nova fase, de glória. “Comecei a treinar bem, a cabeça ficou boa, comecei a ter bons resultados”, conta. Em julho daquele ano, Ederson participou do Troféu Brasil de Atletismo e chegou ao lugar mais alto do pódio nos 5.000m, ficando à frente de um dos maiores fundistas do país, Marílson Gomes dos Santos. “A partir desse resultado, o pessoal começou a me ver com outros olhos. Realizei outras provas boas. E, então, tive um bom aumento, passei a receber até mais do que ganhava em Campinas.”

Tudo acontecia de maneira muito natural, e havia a certeza de que aquele era o caminho. “Havia uma coisa dentro de mim que dizia que eu tinha talento para aquilo, caso contrário, eu teria saído. Mesmo em 2010, quando quis parar, eu sentia que deveria continuar.” 

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Atletismo ECP 2019, 2marco | Esporte Clube Pinheiros | Foto: RicardoBufolin/PanamericaPress/ECP

Em 2014, Ederson foi convidado para integrar o programa de atletas da Marinha, instituição que ele representa até hoje. “Atualmente, sou Terceiro-Sargento da Marinha, graças ao atletismo. O meu papel é representá-la nas competições, como atleta.” 

A partir de então, Ederson passou a correr pela Marinha e por São José dos Campos. Ainda em 2014, começou a ser patrocinado pelo Bradesco e a participar das provas organizadas pela instituição financeira até 2018. 

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Recomeços

Ederson vivia, sem dúvida, uma boa fase e encerrou 2017 como o melhor brasileiro da São Silvestre, ficando em 7° lugar, com 46 minutos. Mas uma dor no pé durante a prova já dava indícios de que alguma coisa poderia estar acontecendo… Em janeiro de 2018, o corredor descobriu uma tendinite do calcâneo (lesão que afeta o tendão que liga o músculo da panturrilha ao osso do calcanhar) no pé direito. “Perdi quatro meses do ano”, lembra. 

Ainda nesse período, Ederson se reuniu com o treinador do Clube Pinheiros, Cláudio Castilho. “Ele me fez uma proposta, nós conversamos e acabei indo para o Pinheiros e mantendo apenas a Marinha.”

Ederson Vilela passou a dividir a sua rotina entre Caçapava e São Paulo. Na capital paulista, o corredor dividia uma república com mais um atleta. “Os treinos voltaram a ficar bons. Em setembro, fui campeão dos 10.000m no Troféu Brasil, já pelo Clube Pinheiros.” 

Após a prova, ele realizou a Meia Maratona de Buenos Aires, onde fez o seu recorde pessoal na distância e terminou em 6° lugar. Foram 21 km em 1h03. “Depois da lesão no pé direito, tive uma lesão no pé esquerdo por estresse. Fiquei outubro e novembro parado. Voltei em dezembro, fiz algumas provas, mas nada muito bom. Eu não via a hora de terminar o ano. Competi apenas quatro vezes. Foi o ano mais difícil que tive.” 

Mas, mesmo com as adversidades e o tempo de recuperação, Ederson Vilela prosperou em um ano duro. Assim, em janeiro de 2019, o corredor se tornou também atleta da Asics. 

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Com duas lesões recentes, este ano teve início com um foco diferente: treinos de fortalecimento. “Coisas que a gente não dava muita atenção.” O trabalho já está gerando bons resultados. Até março deste ano, Ederson Vilela participou de três provas e venceu as três. Primeiro uma de 10 km em Brasília (DF), com 39min44. Depois, 6 km em Curitiba (PR), com 17min30. Por fim, uma prova de 3.000m no Clube Pinheiros, que terminou em 8min01.

No início de abril, o atleta estava nos Estados Unidos, treinando e realizando algumas provas de pista. Seu objetivo era conseguir índices para os Jogos Pan-Americanos de 2019 e também garantir a sua participação no Campeonato mundial de Atletismo da IAAF, em Doha (Qatar), que será realizado em outubro de 2018. Na sequência, Ederson vai batalhar pelo seu lugar nas Olimpíadas de 2020.

Ederson Vilela
Trofeu Brasil de Atletismo | Esporte Clube Pinheiros | Foto: RicardoBufolin/ECP

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E é assim que Ederson vai colecionando medalhas e traçando um caminho de conquistas, com muito treino, em um país onde a valorização do atleta de elite não acompanha o crescimento e a popularização da corrida. “Hoje temos muitas assessorias, muita corrida com muita gente participando, o que é muito legal, sobretudo no sentido da qualidade de vida. No entanto, os profissionais não são valorizados, porque a maioria das provas não tem premiação, ou seja, nós, da elite, acabamos ficando de fora”, comenta o atleta. “Todo fim de semana tem prova, mas poucas com premiação. Se não tiver clube, muito atleta fica no meio do caminho, vai trabalhar em outra área, fazer outra coisa.”

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